Daí que passada a data FIFA, passado o primeiro turno da eleição, o torcedor rubro-negro queria apenas duas coisas: futebol de verdade, porque paixão pelo esporte não se sacia com amistoso contra a Índia, e um pouco de alienação da arena política, quer seu candidato tenha vencido ou perdido, quer seu estado tenha segundo turno ou não.
E o Flamengo, nesta quinta-feira (9), fez questão de não oferecer nenhuma das duas coisas.
O empate com o Santos foi mais um capítulo bizarro na saga de um time que é visivelmente superior aos adversários mas se dedica, de todas as maneiras possíveis, a complicar suas partidas. No primeiro tempo do duelo na Vila Belmiro, o Flamengo sobrou, fez dois gols mas poderia ter feito três ou quatro, e deixou a sensação de que a qualquer momento poderia fechar o caixão.
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Sensação que se manteve na segunda etapa. “Olha essa chance, agora sai”. “Não saiu agora, mas no próximo é gol”. “Tudo bem, perdemos mais um, mas só mais uma bola e 3×0”. “Ok, erramos de novo, mas da próxima não passa”. “Pera, o Jorginho caiu com a mão na bola? O juiz deu pênalti? O que???”
Pois sim, foi isso que aconteceu. Pênalti profundamente suspeito, Jorginho expulso, e o time rubro-negro mais uma vez, com a faca e o queijo na mão, acabou atirando o queijo fora e esfaqueando o próprio pé. Um lance confuso e questionável? Sim, mas nada disso importaria se o time apenas tivesse feito os gols fáceis que teve pra fazer. O cenário então era 2×1, dez homens em campo e a Vila Belmiro, que estava dormindo, acordou com o despertador que o próprio Flamengo programou.
E vibrou mais ainda com o gol de empate, em outro pênalti absurdo após Luiz Araújo não conseguir marcar uma das jogadas ensaiadas mais óbvias já realizadas num campo brasileiro desde a chegada de Charles Miller. 2×2 e com os mais de 14 minutos de acréscimos dados pelo árbitro, chegou a ser uma sorte não conseguir sofrer o terceiro gol.
Tudo isso, claro, após a equipe entrar em campo com uma incrível camisa com os dizeres “proibir não é proteger”, parte da cruzada da diretoria rubro-negra pelo fim da proibição às bets, que se disfarça de preocupação com a segurança jurídica, mas é na verdade não apenas mais uma mostra da imensa insensibilidade de Bap e companhia, como mais um exemplo descarado do uso político que esse grupo vem fazendo do clube.
Porque sim, é claro que a proibição das bets prejudica as finanças do Flamengo, como prejudica a de todos os clubes que tiveram seus valores de patrocínio elevados pela entrada das casas de aposta no Brasil. Mas é bem perceptível o quanto a postura de Bap é bem mais vocal e enfática do que de outros clubes e como ele, mais do que qualquer outro dirigente, decidiu não resolver essa questão no campo jurídico, mas sim no da opinião pública.
A questão das bets – e do vício em jogo – é um problema de saúde pública, algo que vem prejudicando milhões de famílias, rubro-negras ou não. E sendo o Flamengo o maior clube do Brasil e uma nação de milhões, caberia a ele trabalhar ao lado da sociedade, das autoridades e dos outros clubes em soluções que pudessem atenuar os prejuízos da proibição aos times e não pedir o retornos das bets com argumentos que obviamente não se sustentam – ou Bap também acredita que “proibir não é proteger” em questões como o aborto e o uso de drogas?
Então na noite desta quinta-feira, o Flamengo passou duas vergonhas. A primeira dentro de campo, com um empate patético diante do catado festivo de Neymar e seus amigos, e a segunda fora dele, insistindo no erro de achar que patrocínios são mais importantes que vidas e permitindo que Bap siga usando o clube não apenas para fazer política, mas para fazer o pior tipo de política possível.
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