Tudo nessa vida é uma questão de referencial. 40 km/h por hora é uma velocidade absurda para um ser humano, alta para um ciclista profissional, baixa para um carro. Levantar 50 kg é impossível para um frango de academia, fácil para um halterofilista, nada para uma empilhadeira. Da mesma maneira um gibi era uma compra cara pra você quando criança, totalmente viável pra você quando adulto, o Nicolas Cage precisava de um galpão inteiro para guardar os dele, de tantos que tinha.
Pela mesma lógica, ser um ótimo motorista de Uber não te qualifica para pilotar um carro de Fórmula 1, assim como consertar geladeira não te torna mecânico de nave espacial e operar direitinho uma air fryer dificilmente vai te garantir as condições pra ser chef de um grande restaurante.
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E esse preâmbulo é pra lembrar, mais uma vez, a obviedade de que times de status diferentes, com recursos diferentes e potenciais diferentes, possuem expectativas diferentes. O que é bom pro Cruzeiro não é bom pro Flamengo, o que faria sentido nas Laranjeiras não faz na Gávea, quem se garante no CT Rei Pelé não se cria no Ninho do Urubu. Na verdade, até mesmo o que seria bom pro Flamengo de 2017, por exemplo, não faz mais sentido algum para esse Flamengo de 2026.
Não é presunção, não é prepotência, não é soberba. É apenas consciência de que a equipe rubro-negra, hoje, tem o maior investimento do continente, os maiores nomes do país, e precisa jogar e ser cobrada dentro dessa régua.
Como jogou, por exemplo, no primeiro tempo do jogo contra o Grêmio. Uma equipe rubro-negra criativa, eficiente, que aproveitou as chances e, rapidamente, abriu 3×0 no placar. No primeiro gol Arrascaeta deixou Lino na frente do gol e ele não perdoou. No segundo, Carrascal realizou uma jogada pornográfica, confirmou os boatos de que é o filho colombiano de Pelé e Maradona, para Pedro ampliar o placar. E no apagar as luzes da etapa inicial, Pedro marcou mais um, no rebote do chute de Samuel Lino.
O adversário estava nas cordas, o Flamengo tinha uma atuação de gala, se fosse mantido aquele nível de pressão e eficiência, poderíamos estar diante de uma goleada histórica no Maracanã. Mas é aí que entra o dedo do técnico Leonardo Jardim.
Porque ao substituir Carrascal, que fazia uma grande partida, pelo quase esquecido Luiz Araújo, que já perdeu há algum tempo qualquer espaço no elenco rubro-negro, o português não apenas anulou o lado direito do Flamengo como ainda chamou a equipe adversária de volta para o jogo, fazendo sua parte para que a equipe rubro-negra não apenas não ampliasse o placar e realizasse a possível goleada, como ainda voltasse a correr algum mínimo risco na partida.
Não era esse o jogo para dar rodagem a algum jogador promissor? Um jovem com potencial? Alguém que fosse agregar ao elenco nessa reta final de temporada ou no ano que vem? Aparentemente não, a melhor opção era mesmo um ponta que, tal qual Cebolinha no primeiro semestre, já está praticamente descartado dos planos rubro-negros.
Isso muda o fato de que tivemos uma grande vitória, que representa mais um passo importante rumo ao próximo título brasileiro? Claro que não. Mas é mais um sintoma do quanto Leonardo Jardim, que pode sim ser um excelente técnico para clubes de menor qualidade e ambição, talvez não tenha o tamanho e a capacidade proporcionais às aspirações de um time como o Flamengo.
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