
Flamengo 2 x 0 Mirassol. Não foi apenas estar entre os 60 mil no jogo que pode ter sido “o do decat”. Mas o de um grande retorno. Fazia quase dez anos que eu não via o Flamengo no Maracanã. Voltar agora, acompanhado do meu pai e da minha filha, deu naturalmente à noite uma dimensão familiar: três gerações entrando juntas no estádio para compartilhar uma paixão que atravessa o tempo. Mas foi justamente depois de passar pelas catracas que percebi que aquela experiência dizia respeito a algo muito maior do que nós três. Eu estava voltando ao lugar onde, carioca que sou, não apenas me criei rubro-negro, mas também onde o Flamengo nasceu como fenômeno popular e onde, hoje, uma criação essencialmente carioca se apresenta como aquilo em que se transformou: uma potência global do futebol.
Ver o Flamengo em qualquer estádio é sempre especial. Quem carrega essa devoção sabe que acompanhar o time ao vivo tem algo de comunhão, de flamenguismo coletivo que televisão nenhuma consegue reproduzir. Já vi o Flamengo em diferentes países, acompanhei finais de Libertadores em Montevidéu e Guayaquil e estive na Mundial de Clubes de 2025, inclusive na Filadélfia. Mas existe uma diferença entre ver o Flamengo e ver o Flamengo em sua casa. Voltar ao Maracanã depois de uma década me fez entender isso imediatamente.
O Flamengo é uma religião. E, se é assim, o Maracanã é ao mesmo tempo nossa Meca, nosso Vaticano e nossa Jerusalém — felizmente, naquele dia, sem Muro das Lamentações. É o lugar da peregrinação, o espaço em que o flamenguista encontra dezenas de milhares de outros fiéis e percebe fisicamente a dimensão daquilo a que pertence. Você pode acompanhar o clube em Lisboa, Buenos Aires, Doha ou Filadélfia; pode cantar as mesmas músicas e vestir o mesmo Manto. Mas entrar no Maracanã para ver o Flamengo continua sendo outra coisa.
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E há uma mudança importante acontecendo. Ir ao Maracanã ver o Flamengo hoje começa a se parecer, guardadas as particularidades de cada cultura futebolística, com ir a Paris para ver o PSG, a Londres para assistir ao Arsenal ou a Lisboa para conhecer o Benfica. Não é apenas um jogo incorporado ao roteiro de quem já está na cidade. O próprio Flamengo começa a ser uma razão para viajar ao Rio de Janeiro.
Vi uma pequena demonstração disso naquela noite ao conhecer um grupo vindo da Filadélfia. Para eles, estar ali fazia parte de uma experiência que ia muito além dos noventa minutos. E achei particularmente curioso encontrá-los justamente depois de ter estado na cidade deles, em 2025, acompanhando o Flamengo no Mundial de Clubes. Um ano estamos nós atravessando o mundo atrás do Flamengo; no outro, são eles que atravessam o mundo para encontrá-lo em casa. É uma inversão pequena, mas muito reveladora do tamanho que o clube adquiriu.
O Rio continua sendo a origem e o Flamengo continua profundamente carioca. Basta caminhar pela cidade para perceber. O vermelho e o preto estão incorporados à paisagem urbana de uma maneira difícil de reproduzir em qualquer campanha de marketing. A camisa aparece na praia, no metrô, no restaurante, no trabalho, na roupa feminina, infantil, oficial, genérica, sofisticada ou popular. Está em todas as classes e ocasiões. O Flamengo pertence ao Rio porque, de certa maneira, o Rio também decidiu pertencer ao Flamengo. Já não existem mais rivais. Existem dissidentes excepcionais, tamanha a nossa soberania. Ser os outros e não Flamengo, é como ser católico no Japão ou xintoísta na Itália.
Mas esse clube nascido carioca – e flamengo, como as raízes neerlandesas da praia onde fomos fundados – já ultrapassou há muito tempo as fronteiras da cidade e mesmo do Brasil. O que estamos começando a testemunhar é uma etapa seguinte: a transformação dessa gigantesca comunidade internacional em presença física no próprio Rio. O estrangeiro ou brasileiro residente no exterior que visita o Maracanã para conhecer a casa do Flamengo está fazendo uma espécie de peregrinação futebolística, como milhões fazem todos os anos aos grandes templos europeus.
E o mais interessante é que a experiência começa a estar à altura dessa dimensão.

Confesso que fiquei impressionado com a operação do Maracanã. Biometria no acesso, organização dos fluxos e, sobretudo, a capacidade de retirar cerca de 60 mil pessoas do estádio com rapidez e sensação de segurança. Para quem esteve no Mundial de Clubes nos Estados Unidos e em finais de Libertadores, a comparação é inevitável. Em vários aspectos, achei a operação carioca tão eficiente quanto — e em alguns momentos até mais qualificada — do que experiências recentes que tive em competições internacionais de primeiro nível.
Isso importa muito mais do que parece. Se o Flamengo pretende se afirmar definitivamente como uma potência global, a experiência de quem vai vê-lo precisa acompanhar a qualidade do produto dentro de campo. Um clube mundial não se constrói apenas com títulos, estrelas e receitas. Constrói-se também na catraca que funciona, na segurança, na mobilidade, na capacidade de receber uma família, um turista ou um torcedor que atravessou um oceano para finalmente conhecer seu estádio.
Mas nada disso explicaria sozinho o que torna aquela experiência especial. A tecnologia organiza a peregrinação; quem dá sentido a ela são os fiéis.
Quando dezenas de milhares cantam juntos, fica difícil não recorrer novamente à metáfora religiosa. Ali desaparecem, por algumas horas, muitas das divisões que hoje parecem organizar a vida brasileira. Em um país politicamente polarizado, no qual quase qualquer assunto pode nos colocar em campos opostos, é extraordinário observar pessoas de origens, classes, regiões e convicções completamente diferentes abraçando-se sem perguntar absolutamente nada umas às outras depois de um gol. O Flamengo cria uma identidade anterior a essas diferenças.
E é exatamente por isso que continuo insistindo na importância dos consulados e embaixadas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Se o Maracanã é nossa grande catedral, esses espaços são as pequenas igrejas da Nação. É neles que o flamenguista de Bruxelas, Filadélfia, Lisboa, Tóquio ou qualquer outro lugar exerce sua devoção quando não pode estar no Rio. São comunidades que mantêm o ritual vivo, recebem novos integrantes, transmitem músicas e histórias às gerações seguintes e preservam uma identidade que a distância poderia enfraquecer.
Talvez essa rede seja ainda mais importante porque grande parte desses flamenguistas jamais esteve no Maracanã. Muitos sequer são cariocas. Na Fla-Bruxelas, por exemplo, já constatamos que mais da metade dos nossos membros registrados não nasceu no Estado do Rio. Isso diz muito sobre a natureza singular do Flamengo: antes de se tornar internacional, ele precisou deixar de ser apenas carioca para se tornar verdadeiramente brasileiro.
Agora começa uma nova etapa.
O Flamengo continua sendo do Rio, mas já não pertence apenas ao Rio. E o Maracanã, justamente por isso, pode se transformar cada vez mais no ponto de encontro mundial dessa Nação.
Depois de dez anos sem ver o Flamengo ali, saí com uma percepção diferente. Já tinha visto o time em outros estádios, países e continentes. Já havia vivido o flamenguismo coletivo em muitos lugares e sei que encontrar o Flamengo longe de casa sempre será emocionante.
Mas peregrinação é diferente de devoção cotidiana.
Uma coisa é encontrar nossa religião pelo mundo.
Outra é finalmente voltar ao seu templo.
E, para um flamenguista, não importa de onde tenha partido a viagem: todos os caminhos continuam levando ao Maracanã.
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