
Um tabu inesperado e peculiar que surgiu nos últimos anos é esse de que não se pode mais reclamar do Flamengo. Se o torcedor rubro-negro critica a própria equipe, se ele questiona o desempenho do seu time, surgem não apenas participantes de outras torcidas para nos acusar de “reclamar de barriga cheia” como aparecem até mesmo outros rubro-negros pra acusar quem faz a reclamação de ser “mimado” e ter esquecido todas as fases complicadas que o time já viveu antes.
Primeiro porque se o fato de existir algum clube em situação pior do que o seu te impedir de reclamar, então ninguém mais pode reclamar de futebol no mundo, nem mesmo o torcedor da Ponte Preta, que não vence há 19 jogos na série B e está usando um time de moleques pra não perder por WO já que os jogadores do profissional estão de greve após seis meses de salário atrasado. Afinal, tem torcedor aí sonhando com a chance de estar na série B e clube cuja meta é ajustar as finanças o bastante pra dever “só” seis meses de remuneração pros seus atletas.
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E depois porque o fato de que, com o Flamengo quebrado, tivemos que nos contentar com times terríveis, não faz com que hoje, torcendo pelo Flamengo mais rico de todos os tempos, nossa barra de cobrança precise se manter parecida. Laterais como China e Anderson Pico, zagueiros como Wellinton e Irineu, meio-campistas como Walter Minhoca e Fernando (irmão do Carlos Alberto), assim como atacantes nível Marlos Moreno e Josafá merecem nosso respeito, mas jamais nossa nostalgia. A expectativa do torcedor rubro-negro precisa ser alta e não podemos deixar que nosso passado traumático nos impeça de entender isso
Faço essa introdução, mais uma vez, a equipe de Leonardo Jardim venceu. Um primeiro tempo de domínio absoluto, um placar dilatado, uma atuação de gala de Samuel Lino e participação excelente de Carrascal no segundo tempo. Três pontos importantes conquistados num clássico, distância para o líder do campeonato caindo novamente, uma rodada muito positiva para todos nós.
Mas isso tira do torcedor o direito de se incomodar com mais um começo de segundo tempo inoperante, em que só não sofremos o empate porque a equipe alvinegra vive um momento de profunda indigência técnica? O fato de que já tivemos Val Baiano no comando de ataque torna anti-flamenguista questionar o preciosismo de Pedro, um dos maiores camisas 9 da atualidade, mas que frequentemente parece estar atuando nos “Gávea Globetrotters” e achar que todo gol precisa de uma palhaçadinha antes? Perguntar por que Leonardo Jardim não consegue manter o Flamengo na mesma pegada por 90 minutos é ser viúva do Filipe Luís?
Porque sim, o Flamengo venceu e foi uma grande e importante vitória. Mas a ideia de que vencer torna um time impermeável a críticas, ainda mais quando ele apresenta os mesmos problemas que já causaram derrotas anteriores, é menos uma forma de apoiar a equipe e mais um sintoma de acomodação. Ainda mais num cenário em que o próprio Léo Ortiz, em entrevista pós-jogo, criticou a postura da equipe durante boa parte do segundo tempo. Ou então agora nosso zagueiro titular, por estar insatisfeito com esse aspecto da partida, também é um mimado que quer sabotar a equipe?
O Flamengo hoje, apesar das falhas de Bap e Boto, é sim um grupo forte, com qualidade, estrutura e um teto alto, capaz de dominar não apenas o Brasil e o continente, como brigar com as grandes equipes de fora. Esperar menos do que isso, se contentar com menos do que isso, é negar ao clube o tamanho e a dimensão que ele tem. Cada pessoa é do seu jeito e é direito de qualquer torcedor pensar pequeno, querer pouco. Apenas não obriguem a sonhar baixo quem sabe o quão alto esse urubu consegue voar.
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