
O Torneio do Algarve dificilmente ocupará um lugar de destaque entre as grandes conquistas da história do Flamengo. Afinal, trata-se de uma competição de intertemporada, com um caráter muito mais preparatório do que competitivo. Ainda assim, há vitórias que valem mais pelo que simbolizam do que propriamente pelo troféu levantado. E foi exatamente essa a sensação que tive ao assistir, infelizmente pela TV, ao Flamengo derrotar o Benfica no Estádio do Algarve.
Dentro de campo, a vitória até teve ingredientes interessantes. Um time praticamente reserva, com afirmação de Wallace Yan e brilho de outros jovens, mostrou personalidade, organização e capacidade de competir diante de um adversário tradicional do futebol europeu. Houve ainda todo o contexto envolvendo a “agressividade dos brasileiros” – como disse a mídia portuguesa – a Prestiani depois do caso com Vini Júnior na Liga dos Campeões. O apito final sacramentou a manutenção da escrita de que o Flamengo nunca perdeu para o Benfica.
E de fato, e aí vem o mais importante. O maior estádio do sul de Portugal era, visual e sonoramente, rubro-negro. O Flamengo jogava contra o maior clube de Portugal e dono de uma grande torcida global, também fruto de uma extensa diáspora lusa. Mas ver as bancadas em maioria de zucas rubro-negros, não só flamenguistas. Não se tratava apenas de um grupo de brasileiros espalhados pelas cadeiras. Era uma torcida organizada, que cantava os noventa minutos, empurrava o time e criava uma atmosfera muito parecida com a que vemos tantas vezes no Maracanã.
Aquilo não aconteceu por acaso. Isso foi resultado de um trabalho silencioso e extremamente competente realizado pelos consulados e embaixadas do Flamengo em Portugal. Porto, Braga, Cascais e Lisboa, solidificam a voz rubro-negras em terras lusas. Para o Algarve, organizaram caravanas, confraternização, batucada com sinalizador, e emularam um Aerofla que ofereceu um espaço de pertencimento para quem decidiu construir a vida longe de casa.
Mais do que reunir pessoas para assistir a uma partida, as embaixadas e consulados ajudam a preservar uma identidade. São eles que fazem com que um jogo do Flamengo na Europa deixe de ser apenas um evento esportivo e se transforme em um reencontro entre brasileiros em uma só unidade, em momentos em que mais e mais nos separamos por polarizações ideológicas. Prova disso também foi a linda série de encontros de embaixadas e consulados do Flamengo na Europa – Braga, Bruxelas, Amsterdã, Paris e Londres – com o ex-goleiro e ídolo Raul Plassmann – tardes e noites históricas de congregação intergeracional em vermelho e preto.
Voltando ao Algarve: a maior beleza do sábado foi proporcionar a alegria a muitos dos torcedores presentes que jamais haviam entrado no Maracanã até então. Alguns porque hoje vivem no exterior e deixaram o Brasil há muitos anos. Outros porque, mesmo quando moravam no país, cresceram longe do Rio de Janeiro. Afinal, a maior parte da torcida do Flamengo nunca foi carioca. O clube tornou-se nacional muito antes de pensar em ser internacional.
Essa constatação me fez lembrar imediatamente da Fla-Bruxelas, o consulado que tive a alegria de fundar na Bélgica.
Quando começamos nossos encontros, imaginávamos que a maioria dos participantes seria formada por cariocas vivendo no exterior. Rapidamente descobrimos que estávamos completamente enganados. Fizemos uma pesquisa recente entre nossos aproximadamente 150 membros e constatamos que mais da metade deles não nasceu no Estado do Rio de Janeiro. Há muitos goianos, mineiros, paulistas, pernambucanos, gaúchos, brasilienses, catarinenses, baianos e pessoas de praticamente todas as regiões do Brasil, refletindo não apenas a geografia da diáspora brasileira, mas atestando a real capilaridade nacional do CRF.
E isso talvez explique por que o Flamengo é um fenômeno tão diferente dos grandes clubes europeus: costuma-se dizer que Real Madrid, Barcelona, Manchester United ou Paris Saint-Germain são marcas globais. E são mesmo. Possuem milhões de simpatizantes espalhados pelo planeta, enorme presença digital e um poder comercial impressionante na Ásia, no Oriente Médio. Mas a internacionalização do Flamengo parece seguir uma lógica distinta.
Ela nasceu genuinamente pelas pessoas. Não foi construída inicialmente por campanhas de marketing ou estratégias de expansão internacional – o que, de fato, seria ainda uma grande ação orquestrada. Ela acompanhou o movimento dos brasileiros pelo mundo. Cada família que saiu do Brasil levou consigo um sotaque, uma receita, uma lembrança… e, muitas vezes, uma camisa rubro-negra.
Foi exatamente isso que apareceu no Algarve: o Flamengo não levou torcida para Portugal. O Flamengo reencontrou uma torcida que já estava lá.
Isso me faz pensar que talvez estejamos diante de um patrimônio ainda pouco compreendido pelo próprio clube. Não duvido, por exemplo, que o Flamengo colocasse mais torcedores em um eventual jogo contra o Paris Saint-Germain em Lyon do que o próprio PSG. Tampouco me surpreenderia vê-lo fazer o mesmo diante do Chelsea em Manchester ou até contra o Real Madrid em San Sebastián. Não porque esses clubes sejam pequenos — evidentemente não são —, mas porque poucos possuem uma comunidade expatriada tão numerosa, tão apaixonada e tão organizada quanto a brasileira.
Há ainda um elemento simbólico que ajuda a explicar por que o Flamengo esteve tão presente no imaginário português na última semana. Além da conquista no Algarve, o clube voltou ao centro das conversas esportivas com a confirmação de Jorge Jesus como novo treinador da seleção portuguesa, encarregada de reconstruir a equipe após uma Copa do Mundo decepcionante. A escolha recolocou inevitavelmente o Flamengo na pauta, já que o clube foi, segundo o próprio, o lugar em que viveu o auge de sua carreira, conquistando títulos, encantando uma torcida e repetindo inúmeras vezes que nunca foi tão feliz nem se sentiu tão realizado profissionalmente quanto no clube rubro-negro.
O que vimos no Algarve reforça também uma agenda que o Flamengo não pode mais adiar. A atuação exemplar dos consulados e embaixadas em Portugal demonstrou que existe uma rede internacional de torcedores organizada, comprometida e disposta a representar o clube muito além dos noventa minutos de uma partida. Esse patrimônio humano precisa deixar de ser visto apenas como uma iniciativa espontânea da torcida para ser incorporado de forma permanente à estratégia institucional do Flamengo.
Não por acaso, as discussões sobre a reforma do Estatuto do Flamengo, que devem avançar nos próximos dias, representam uma oportunidade histórica. Se, como vem sendo debatido, a modernização da governança passar pela redução ou extinção de parte das vice-presidências estatutárias, seria o momento ideal para criar uma Diretoria de Consulados e Embaixadas forte, profissional e executiva, capaz de estabelecer uma política permanente de relacionamento com a Nação Rubro-Negra espalhada pelo Brasil e pelo mundo. Infelizmente, nos últimos anos essa agenda acabou ficando excessivamente dependente do voluntarismo de abnegados torcedores, sem que o clube reconhecesse, valorizasse e potencializasse de forma compatível a importância estratégica dessa rede internacional.
Esses torcedores são, evidentemente, consumidores da marca Flamengo. E, com produtos, experiências e programas especialmente desenhados para quem vive fora do Rio de Janeiro — e do Brasil —, representam também um enorme potencial para ampliar receitas e fortalecer economicamente o clube.
Mas reduzir sua importância a uma dimensão comercial seria um erro. Eles são, antes de tudo, os verdadeiros embaixadores do gigantismo rubro-negro. São eles que organizam encontros, caravanas, ações solidárias, recepcionam novos brasileiros, mantêm viva a identidade flamenguista em diferentes países e fazem com que, mesmo a milhares de quilômetros do Maracanã, o Flamengo continue entrando em campo como se estivesse em casa.
Investir nessa rede não é apenas reconhecer um trabalho extraordinário; é fortalecer um dos ativos estratégicos mais valiosos que o clube possui para consolidar sua presença global nas próximas décadas.
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