
Numa primeira instância confesso que pareceu invencionice, coisa de algum repentista ou trovador da nossa literatura de cordel. Nonada. Uma senhora acima de qualquer suspeita, frequentadora do Estrela de Iemanjá – célebre terreiro nas bandas de Guapimirim – pediu vista e vaticinou: era batata.
Estamos liberados de acreditar, claro, mas quem tem fé não há de duvidar. Houve, numa nuvem qualquer lá em riba, o plá entre o santo padroeiro das causas impossíveis e o profano defensor das crônicas improváveis.
De acordo com o relato, os dois se deram muito bem – conheceram-se três dias depois de um tremendo pagode de boas-vindas a Arthur Muhlenberg, o popular Urublog, precedido por uma pelada amigos Valido contra amigos de Adílio. No cardápio, o famoso feijão da Vicentina.
O encontro teria ocorrido numa aprazível bodega celestial, com vista para Santa Teresa e entre acepipes divinos. O mais gozado foi quem os apresentou. Uma outra celebridade flamenga, nada menos que o gigante da literatura e imortal da cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras, o saudoso…
– José Lins do Rego!
– Ô meu queridão! Espia lá, é o Vinicius. Ô Poetinha, na volta dê uma parada aqui. Vou te apresentar ao Mulembergue, estava agorinha contando a ele dos teus tempos de remador no Mengo, como aluno do lendário Antônio Engole-Garfo. Como tu dizia mesmo? “Era um ambiente da mais total boçalidade”. Vai e volta, hein Poeta!
– Que parada, mestre Zé Lins. O Vinicius de Moraes perambula sempre assim? Peladão?
– Sim, sempre a balangar aquele saco cor de rosa. Sabe como é diplomata, cheio de regalias. Você sabe, como ele morreu na banheira, São Pedro libera.
– Bagulho escroto essa parada de morrer, né? Tu, naqueles três meses de cama no hospital dos Servidores, achou que sairia dessa?
– Rapaz, quando me adentrou no quarto o doutor Juscelino, que não era mais urologista e sim presidente da República, ao lado da esposa Sarah Kubitschek, eu tive certeza: me danei! Escritor brasileiro quando recebe político, um dos dois está no fim.
– Não, é que tu era foda mesmo. Quando li “Fogo morto”, título por sinal dos mais clubistas, quase devolvi minha pena ao ganso. Reli outro dia, de emocionar.
– Emoção eu senti contigo, homem. Nosso Flamengo tetra da Libertas, e aquele menino entrou no seu quarto de hospital entoando a marchinha do nosso bom Lamartine. No violino! No violino! Chorei um Solimões.
– O que é fodaço no “Fogo morto” é que reúne o pior do Brasil e o melhor do povo. Um romance simples e profundo, impactante e ao mesmo tempo muito engraçado.
Leia do mesmo autor: O julgamento de Muhlenberg
– Mulembergue, avalie. O Flamengo daquela época atuava no estádio da Gávea com o seguinte escrete: Jurandir, Nilton Canegal e Domingos da Guia; Biguá, Modesto Bria e Jaime; Jacy, Zizinho, Perácio, Pirilo e Vevé. Podia eu estar mais inspirado?
– Tu diria que virou Flamengo por obra do time ou da torcida, Zé Lins?
– Em menino eu sentia uma angústia de não ter irmãos, de ser criado sozinho. Isso desde os primeiros banhos de rio na Paraíba. Desembarquei no Rio em 1935, e o Flamengo me deu um irmão em cada cafezinho, irmãos no vestiário, no cimento da arquibancada…
– Mas me conta, recebi seu recado que havia “gente importante” querendo falar comigo. Era o Vinicius?
– Que nada, o Vina já te acompanha faz tempo, lia suas crônicas até quando o Botafogo perdia. Ele sorria quando você usava a expressão “liliputiana”, que ele consagrou. Me dizia: “Zé Lins, ator que virou bom cronista só conheço dois: nosso Machado de Assis e o garoto do Flamengo.” Não, não é o Vina. Quem quer te conhecer é um dos grandes. Número baixo, compreende? Um antigo…
– Bagulho doido. Vou até pedir outro chope. Vai mais um?
– Deixa que eu chamo o garçom Caubi ou o Zé Melo. Tá vendo aquele outro, olhando para cá puto dentro das calças? Aquele garçom é o Peitão, veterano da Confeitaria Colombo. É do Vasco, eu espalhava que ele era amigado com um fuzileiro naval. Caubi! Dois chopes, homem. E traz um cálice de conhaque de pitanga aqui pro meu amigo Mulembergue! Veio da adega do meu irmãozinho Gilberto Freyre.
– Amanhã tem Flamengo, hein. A gente vai ver aqui mesmo?
– Ah, você vai ficar maluco. Ficamos naquela mesa ali. Junta Ary Barroso, Vladimir Carvalho, Gilberto Cardoso e o Mário Filho, mastigando o charuto como sempre. Os que mais gritam são a dona Ivette Dunlop, minha irmãzinha da Colombo, e o Emmanuel Lobo, do grupo Dragão Negro. O Condé também aparece, normalmente depois da partida. Volta e meia, também aparece ELE. O santo homem que quer te ver. Pela hora, deve estar para chegar, te prepare. A não ser que surja uma causa impossível…
– Porra. É o amigo Judas Tadeu mesmo? No duro?
– O próprio, de alma e osso. Ficamos chegados de tanto ele apartar briga minha. Outro dia um tricolor de cabelinho espetado me cumprimentou, sorridente, e insinuou que João de Deus era o maior, e que o santo padroeiro do Flamengo estava superado. Parti para cima aos berros: ô puto! Fresco! Safado! Filho de uma égua! Daí para baixo, que vergonha.
– São Judas é o cara. Mas na boa, aquele bagulho de usar túnica verde e grená… Ninguém dá um toque no amigo?
– Tadeu é daltônico, acredita? Foi usar aquela roupa uma vez por distração e um italiano o retratou assim. Mas olhe, não vá se emocionar, hein. O santo é homem simples, não gosta de afetação.
– Zé Lins, como eu vou conhecer o milagreiro assim, de tênis de skate e bermuda?
– Fique sereno. Só manter a compostura. Ah, e evite lembrar o santo homem de certos deslizes. Sabe a noite do América do México? Houve uma enchente com deslizamento. Ele se atrasou, coitado.
– Que merda, vacilo. E o gol de barriga? Ali não tinha desculpa.
– Saiu mais cedo, acredita? Achou que a taça tava no papo e foi todo feliz ajudar uma concurseira desesperada. Não comente isso com ele, rapaz. Disfarça, olha quem vem lá, de machadinha e tudo.
– Posso pedir uma graça a ele? No Brasileiro, na Libertadores ou aquela ajudinha nas eleições?
– Calma, rapaz. Postura, postura.
E deu-se o aguardado encontro. O cronista se levantou, e ambos sorriram, de início cerimoniosos. Foi quando o inevitável aconteceu, a cena que deixou o romancista José Lins roxo de vergonha, com o olhar esbugalhado. Ao se ver diante daquela figura barbuda, com o olhar cheio de luz, o famoso torcedor do Flamengo não resistiu. Caiu de joelhos à sua frente, os olhos vermelhos, e a liturgia foi para o escambau:
– Obrigado. Muito obrigado por tudo que fez pelo nosso Flamengo – disse, num longo abraço.
E o Arthur, disfarçando:
– Que isso, brother, eu hein! Tamos juntos, meu bom Tadeu. Mengão sempre, porra!
Só sei que foi assim.
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