Leandro acredita que a queda da qualidade técnica do futebol brasileiro tem uma explicação clara. Em entrevista ao Jornal do Brasil, o ídolo do Flamengo afirmou que o país deixou de priorizar a formação de jogadores nas categorias de base e passou a enxergá-las principalmente como uma fonte de negociações.
Na avaliação do ex-lateral, a evolução física e tática do esporte não foi acompanhada pelo desenvolvimento técnico dos atletas brasileiros. O resultado seria um futebol com menos criatividade, dribles e jogadores capazes de decidir partidas por meio do talento individual. A crítica não se limita à geração atual, mas ao modelo adotado pelos clubes na preparação dos jovens.
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Leandro aponta mudança de foco na formação de atletas
Ao comparar o futebol atual com o período em que atuava, Leandro reconheceu os avanços na preparação física. O ídolo rubro-negro, no entanto, entende que o Brasil perdeu qualidade justamente em uma área que historicamente foi seu principal diferencial.
“O futebol evoluiu muito na parte física, mas deixa muito a desejar na parte técnica, principalmente no nosso futebol brasileiro, onde, antigamente, nós tínhamos muitas safras. Safras de craques, de gênios.”
Para o ex-jogador, a redução no número de atletas tecnicamente diferenciados está diretamente relacionada à maneira como as categorias de base passaram a ser tratadas. Em vez de preparar jogadores para construir uma trajetória esportiva nos clubes, o processo estaria cada vez mais orientado pela possibilidade de venda.
“Acho que a qualidade técnica mudou muito porque nós esquecemos de trabalhar com a base, entendeu? Que é a área, o setor mais forte que se deve ter no clube.”
A declaração chama atenção por partir de alguém que viveu intensamente o processo de formação. Revelado pelo Flamengo, Leandro passou por treinadores que, segundo ele, insistiam em fundamentos, posicionamento e compreensão tática antes da chegada ao time profissional.
Esse modelo permitia que o atleta desenvolvesse não apenas as ferramentas necessárias para competir, mas também uma identificação com o clube e um estilo próprio de jogar. Na visão do ex-lateral, essa lógica perdeu espaço diante da urgência por resultados financeiros.
“Normalmente, os grandes times de hoje em dia trabalham com jogadores da base para serem vendidos.”
A venda de jovens se tornou uma fonte importante de receita no futebol brasileiro, mas Leandro enxerga um efeito colateral esportivo. Os atletas deixam o país cedo, muitas vezes antes de completar o processo de amadurecimento técnico e de criar um vínculo mais profundo com o clube que os revelou.
“Virou muito comércio”, diz ex-lateral
A crítica de Leandro não está concentrada apenas na quantidade de transferências. O ex-jogador aponta uma mudança de mentalidade que, em sua avaliação, interfere diretamente nas características dos atletas brasileiros.
“Não ficam muito tempo por aqui, em nossos clubes, e logo vão para outros no exterior. Estão perdendo essa identidade, ficando robotizados lá.”
O termo utilizado pelo ídolo do Flamengo resume a preocupação com a padronização do jogo. Ao serem inseridos muito cedo em estruturas mais rígidas, os jovens passariam a privilegiar funções táticas e físicas, deixando em segundo plano a improvisação que marcou diferentes gerações do país.
“Perdendo aquela ‘manha’, o perfil dos nossos jogadores, aquela qualidade técnica, todos aqueles dribles. Virou muito comércio. O valor do dinheiro cresceu muito.”
A fala não representa uma rejeição à organização tática ou à evolução física. O diagnóstico de Leandro está ligado à dificuldade de equilibrar essas exigências com o desenvolvimento do talento individual.
Durante décadas, o futebol brasileiro foi reconhecido por formar jogadores capazes de interpretar situações por conta própria, quebrar sistemas defensivos e encontrar soluções inesperadas. Na visão do ex-lateral, esse perfil se tornou menos frequente porque a formação deixou de priorizar a técnica como elemento central.
A consequência aparece tanto nos clubes quanto na Seleção Brasileira. Sem tempo para amadurecer no país, muitos jogadores chegam ao exterior ainda em fase de desenvolvimento e passam a ser moldados de acordo com as necessidades dos novos mercados.
Diagnóstico também explica a escassez de grandes laterais
A análise sobre as categorias de base ajuda Leandro a explicar outro problema recorrente no futebol brasileiro: a dificuldade de formar laterais de alto nível, especialmente jogadores capazes de contribuir ofensivamente sem comprometer o sistema defensivo.
“Laterais nós temos. Agora, laterais como aqueles que nós tínhamos, aí é difícil.”
Leandro fez parte de uma geração em que a posição reunia atletas com grande capacidade técnica, liberdade para atacar e qualidade na construção de jogadas. Para ele, o surgimento desses nomes também depende das características de cada safra, mas o trabalho de formação é determinante para que o talento seja desenvolvido.
“É safra, é safra, não tem jeito. E isso é dom. Se você tem um dom, você desenvolve e vai crescer, evoluir cada vez mais.”
O ponto central está justamente no verbo “desenvolver”. Mesmo quando um jogador apresenta aptidão natural, ele precisa encontrar uma estrutura que permita aprimorar fundamentos e entender as diferentes exigências da posição.
Na avaliação do ídolo rubro-negro, o futebol atual prioriza laterais mais cautelosos e especializados na marcação, reduzindo o espaço para atletas criativos e ofensivo, como Wesley, por exemplo..
“Hoje nós temos muito mais laterais marcadores, que ficam presos lá atrás porque não têm a qualidade.”
A declaração dialoga diretamente com a crítica à formação. Quando o trabalho técnico deixa de ser prioridade, os clubes tendem a apostar em jogadores mais físicos e disciplinados taticamente, características importantes, mas insuficientes para recuperar o protagonismo que os laterais brasileiros já tiveram.
Debate ganhou força após nova Copa do Mundo
A discussão sobre formação voltou ao centro das atenções após mais uma campanha da Seleção Brasileira abaixo das expectativas em uma Copa do Mundo. Para Leandro, o desempenho não deve ser analisado como um problema isolado ou atribuído exclusivamente ao treinador e aos jogadores convocados.
“Acho que o Brasil hoje está entre a sexta e a sétima força do futebol mundial.”
A avaliação é dura, principalmente por vir de um jogador que defendeu a Seleção em uma das gerações mais talentosas da história do país. Ainda assim, Leandro trata a posição atual como consequência de um processo longo de perda de qualidade técnica e identidade.
“Há seleções da África jogando mais futebol do que a nossa. As da Europa, então, nem se fala. Acho que tem que começar do zero. Dar mais valor e trabalhar os jovens da base para se ter um futuro melhor para essa garotada toda.”
O ex-lateral também citou a dificuldade de encontrar atletas capazes de assumir protagonismo com a camisa da Seleção. Jogadores que se destacam em seus clubes nem sempre conseguem reproduzir o mesmo nível no ambiente internacional, especialmente quando enfrentam o peso histórico da equipe brasileira.
Para Leandro, portanto, a reconstrução não passa apenas por uma troca de comando ou por mudanças pontuais nas convocações. O problema é estrutural e começa muito antes da chegada dos jogadores à equipe principal.
O diagnóstico do ídolo do Flamengo não se limita a uma comparação nostálgica entre gerações. Sua principal preocupação é com o modelo que passou a orientar as categorias de base no Brasil.
Na visão de Leandro, recuperar a qualidade do futebol brasileiro exige devolver à formação seu papel esportivo. Isso significa trabalhar fundamentos, preservar a criatividade e permitir que os jovens construam identidade antes de serem tratados apenas como ativos para futuras transferências.
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