José Boto revelou detalhes dos bastidores do mercado da bola e explicou por que o Flamengo nem sempre consegue convencer jogadores que atuam na Europa a aceitar um retorno ao futebol brasileiro. Em entrevista ao Coluna do Fla, o diretor de futebol rubro-negro afirmou que o principal desafio não está, necessariamente, na parte financeira, mas em fatores ligados à carreira dos atletas, à percepção sobre o Rio de Janeiro e à concorrência dentro do próprio elenco.
Ao abordar o tema, o dirigente detalhou como funciona esse processo de convencimento e apresentou a visão do departamento de futebol sobre as barreiras encontradas em negociações com jogadores que já estão consolidados no mercado europeu.
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José Boto vê resistência de jogadores que já atuam na Europa
Segundo José Boto, o maior obstáculo enfrentado pelo Flamengo é convencer atletas que já estão estabelecidos no futebol europeu a voltar para a América do Sul.
O dirigente explicou que muitos jogadores enxergam esse movimento como um caminho sem volta para a carreira.
“Principalmente dos jogadores que estão na Europa é saírem da Europa. Porque isto é mais uma questão de mercado. O jogador que bate na Europa e que volta à América do Sul, muito dificilmente vai ser vendido outra vez para a Europa. Porque fica com esse carimbo.”
Na sequência, Boto afirmou que essa percepção existe mesmo quando, na visão dele, ela não corresponde à realidade.
“Às vezes até estupidamente, mas fica com esse carimbo que não deu na Europa. Estás a perceber? E então os jogadores têm uma resistência muito grande em voltarem à América do Sul.”
O diretor ainda observou que alguns atletas acabam fazendo escolhas que, posteriormente, podem não se mostrar as melhores para a própria carreira.
“E às vezes fazem, como o Beltrán, (fazem) escolhas que não são as melhores. Vão para clubes que não estão bem, como ao Valencia, acabam por não jogar tão bem e depois acabam por ter que baixar e ainda não dar dois passos atrás, mas dá quatro ou cinco passos atrás. Mas é o mercado. É assim.”
Para Boto, essa resistência costuma diminuir apenas quando o jogador já está em uma fase mais avançada da carreira.
“O mercado é… os jogadores que estão na Europa têm muita reticência em voltarem à América do Sul. A não ser que já tenham alguma idade. Mas têm muita. E essa é a primeira.”
Percepção sobre o Rio também entra nas negociações
Outro ponto citado pelo diretor envolve a imagem que muitos estrangeiros têm do Rio de Janeiro antes mesmo de conhecer a cidade. Segundo Boto, essa percepção influencia diretamente as conversas com atletas e seus familiares.
“A segunda tem a ver com uma questão que eu acho que ele falou, que é a segurança no Rio.”
O dirigente afirmou que ele próprio chegou ao Brasil com uma visão diferente da realidade encontrada.
“Tu, se fores aqui pela rua, conversares com as pessoas, as pessoas acham que o Rio de Janeiro… às vezes tu desembocas em Copacabana e há um gajo de fuzil aos tiros. Porque é essa a imagem que se passa aqui. Eu tinha essa imagem e agora tenho uma imagem diferente do Rio. Não é tão mau como as pessoas pintam, há bolhas de segurança.”
Na avaliação de Boto, um dos maiores trabalhos do departamento de futebol é justamente conversar com a família do atleta durante as negociações.
“Agora, tens de convencer. Muitas vezes tens de convencer. E não é o jogador que tens de convencer, é a família do jogador, é a mulher do jogador, são os filhos do jogador que o Rio de Janeiro não é aquilo que pintam. Que os jogadores vivem lá, vivem tranquilamente, que vão para o treino, que saem do treino, que vivem em condomínios fechados.”
O relato reforça que, segundo o dirigente, questões familiares podem ter tanto peso quanto aspectos esportivos ou financeiros na decisão de uma transferência.
História no Benfica ilustra como decisões vão além do salário
Para explicar esse cenário, José Boto contou um episódio vivido durante sua passagem pelo Benfica.
Segundo o dirigente, o clube português tentou contratar o lateral-esquerdo Armand Traoré, que pertencia ao Arsenal. As negociações entre os clubes avançaram, mas a transferência acabou não acontecendo por causa de uma preocupação da esposa do jogador.
“Falei com o jogador e ele disse: ‘Tenho que falar com a minha mulher, que ela está grávida’. Ela achava que não havia hospitais com capacidade em Portugal para uma gravidez.”
Boto contou que a negociação terminou ali.
“Não foi por salário, não foi por falta de acordo dos clubes, foi por causa do parto da mulher.”
O dirigente utilizou o episódio para ilustrar que, muitas vezes, fatores externos ao futebol acabam sendo decisivos em uma negociação.
Elenco forte do Flamengo também pode dificultar contratações
Além das questões relacionadas à Europa e à percepção sobre o Rio de Janeiro, José Boto citou outro fator que, na visão dele, pesa durante as conversas com possíveis reforços: a qualidade do elenco do Flamengo.
Segundo o diretor, alguns atletas analisam a concorrência antes de aceitar uma proposta.
“E a competição interna, sabendo que nós temos um elenco super qualificado, e que não é fácil ter alguns jogadores que temos no banco de reservas.”
Na avaliação de Boto, o nível do elenco rubro-negro torna o projeto esportivamente atrativo, mas também faz com que alguns jogadores avaliem com cautela as perspectivas de ganhar espaço na equipe.
Qual perfil de jogador é mais fácil convencer?
Se, por um lado, o Flamengo encontra resistência para contratar atletas já consolidados na Europa, por outro José Boto acredita que existe um perfil mais acessível ao futebol brasileiro.
O dirigente citou jogadores que atuam na América do Sul e que já não veem uma transferência para o futebol europeu como um passo provável na carreira.
“Os jogadores que já não bateram na Europa e sabem que já não vão bater na Europa. Quando tu chegas aos 25, 26 anos e jogas aqui, jogas na América do Sul, muito dificilmente ou vais para a MLS ou vais para o Qatar. Esses jogadores são mais fáceis, como é óbvio, a nível de salário, de convencimento.”
Na sequência, o diretor destacou o crescimento do futebol brasileiro como um argumento importante nas negociações.
“A Liga Brasileira, para quem está na América do Sul, é a liga mais forte que existe. É a que paga melhor. É a que tem mais visibilidade.”
Bastidores ajudam a entender a estratégia do Flamengo no mercado
Ao longo da entrevista, José Boto apresentou a visão do departamento de futebol sobre alguns dos principais desafios enfrentados pelo Flamengo na busca por reforços que atuam na Europa.
Na avaliação do dirigente, a resistência de jogadores em deixar o mercado europeu, a percepção internacional sobre o Rio de Janeiro e a disputa por espaço em um elenco altamente competitivo formam um conjunto de fatores que influencia esse tipo de negociação.
As declarações oferecem um raro panorama sobre os bastidores do processo de convencimento conduzido pelo clube e ajudam a compreender por que algumas tratativas vão além de questões financeiras ou da vontade do Flamengo em fechar uma contratação.
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