
O Brasil é o país do futebol. O esporte não nasceu aqui, mas foi definitivamente reinventado aqui. A ginga e o drible tornaram o futebol tão belo porque transformaram opressão em arte e sobrevivência. Para não sofrer punição violenta por tocar em brancos nos primórdios do esporte, os jogadores pretos ressignificaram o jogo, subvertendo o racismo estrutural em improviso e criatividade corporal. Da resistência, nasceu a genialidade. A liberdade negada nas ruas era conquistada no campo.
Para as mulheres, a história foi oposta.
Até os anos 1940, vivemos um apartheid de gênero no futebol. As esposas e filhas da elite se apresentavam nos clubes em festivais de caridade, como entretenimento da alta sociedade. Enquanto isso, nos subúrbios e periferias, majoritariamente pretas e pardas, operárias e lavadeiras, jogavam em campos de terra batida. Lá, o futebol feminino teve uma explosão popular que assustou a elite e motivou o Estado a agir.
Em 1941, o Decreto-Lei 3.199, do governo Vargas, proibiu às mulheres a prática de esportes “incompatíveis com a sua natureza”. O futebol estava na lista. Quem continuou jogando na clandestinidade, por quatro décadas, foram justamente as mulheres mais pobres, em sua maioria negras.
O estrago foi estrutural. Justamente nas décadas de popularização e profissionalização do esporte, o futebol foi restrito aos homens. Eles estruturaram clubes, estádios, ligas, federações e salários. Enquanto a sociedade patriarcal incentivava meninos a jogar desde pequenos, propagava que o futebol tornaria as mulheres inférteis e masculinizadas.
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Nunca se tratou apenas de mulheres jogando bola. Tratou-se da ressignificação do papel do homem. A aceitação dos homens negros no futebol não ameaçava a hierarquia patriarcal. A presença das mulheres, sim. Se elas podiam correr, empurrar, dividir jogadas duras e suportar dor, o argumento do sexo frágil caía por terra.
Esse medo era tão virulento que, quando o direito de jogar foi reconquistado em 1979 – regulamentado apenas em 1983 -, regras absurdas foram impostas: dois tempos de 35 minutos porque mulheres não teriam resistência para 45; bola mais leve e menor; chuteiras sem travas; proibição de profissionalização e de cobrança de ingressos.
Fora de campo, o roteiro se repetia. Torcedoras que gritavam eram chamadas de histéricas. As que vaiavam, de vulgares. Apenas muito recentemente mulheres passaram a ser aceitas nas arquibancadas sem serem hostilizadas.
E quanto mais normalizada se torna a presença delas, mais ataques o futebol feminino recebe. Não se trava uma guerra tão virulenta contra uma modalidade que apenas “não agrada”. A agressividade revela o medo da perda de um espaço exclusivo.
Há três perdas concretas para a estrutura masculina. A econômica: é preciso dividir verba e patrocínio. A discursiva: eles não são mais os únicos com autoridade – mulheres narram, comentam taticamente, apitam e treinam. E a simbólica, a mais intensa: quando mulheres lideram sob pressão, elas destroem o mito de que força e liderança são virtudes exclusivamente masculinas.
Se as mulheres não são frágeis, os homens não precisam protegê-las. Se podem trabalhar e ganhar dinheiro, eles não são os únicos provedores. Se podem liderar, eles não estão mais no topo como detentores exclusivos da autoridade.
A Copa do Mundo de 2027, a primeira Copa Feminina no Brasil, será a nossa ocupação definitiva. O desafio não será lotar estádios. Nós vamos lotar. O desafio será o que faremos no dia seguinte. Se, depois de um mês dividindo narração, apito, comentário tático e arquibancada, o país entenderá finalmente que o país do futebol sempre foi também o país das mulheres que ousaram jogar bola na clandestinidade e na legalidade. Sem estrutura e sem uniformes adequados. Sem apoio e sem validação. Sem salário e sem transmissão.
Para os pretos, o drible foi um ato de sobrevivência. Para as mulheres, todas as mulheres que atuam no futebol, somos a continuidade desse drible.
Somos as que jogaram descalças na terra batida. Somos as que apitam sendo xingadas. Somos as que narram sendo ridicularizadas. Somos as que treinam sem verba. Somos as que lotam a arquibancada sendo hostilizadas.
Se o drible preto transformou a opressão em arte, a permanência das mulheres no futebol transforma a exclusão em ocupação.
É por isso que a Copa de 2027 nos assusta tão pouco e os assusta tanto. Nós já sobrevivemos a tudo, sem nada. Imagine o que faremos agora, com tudo.O Brasil é o país do futebol. O esporte não nasceu aqui, mas foi definitivamente reinventado aqui. A ginga e o drible tornaram o futebol tão belo porque transformaram opressão em arte e sobrevivência. Para não sofrer punição violenta por tocar em brancos nos primórdios do esporte, os jogadores pretos ressignificaram o jogo, subvertendo o racismo estrutural em improviso e criatividade corporal. Da resistência, nasceu a genialidade. A liberdade negada nas ruas era conquistada no campo.
Para as mulheres, a história foi oposta.
Até os anos 1940, vivemos um apartheid de gênero no futebol. As esposas e filhas da elite se apresentavam nos clubes em festivais de caridade, como entretenimento da alta sociedade. Enquanto isso, nos subúrbios e periferias, majoritariamente pretas e pardas, operárias e lavadeiras, jogavam em campos de terra batida. Lá, o futebol feminino teve uma explosão popular que assustou a elite e motivou o Estado a agir.
Em 1941, o Decreto-Lei 3.199, do governo Vargas, proibiu às mulheres a prática de esportes “incompatíveis com a sua natureza”. O futebol estava na lista. Quem continuou jogando na clandestinidade, por quatro décadas, foram justamente as mulheres mais pobres, em sua maioria negras.
O estrago foi estrutural. Justamente nas décadas de popularização e profissionalização do esporte, o futebol foi restrito aos homens. Eles estruturaram clubes, estádios, ligas, federações e salários. Enquanto a sociedade patriarcal incentivava meninos a jogar desde pequenos, propagava que o futebol tornaria as mulheres inférteis e masculinizadas.
Nunca se tratou apenas de mulheres jogando bola. Tratou-se da ressignificação do papel do homem. A aceitação dos homens negros no futebol não ameaçava a hierarquia patriarcal. A presença das mulheres, sim. Se elas podiam correr, empurrar, dividir jogadas duras e suportar dor, o argumento do sexo frágil caía por terra.
Esse medo era tão virulento que, quando o direito de jogar foi reconquistado em 1979 – regulamentado apenas em 1983 -, regras absurdas foram impostas: dois tempos de 35 minutos porque mulheres não teriam resistência para 45; bola mais leve e menor; chuteiras sem travas; proibição de profissionalização e de cobrança de ingressos.
Fora de campo, o roteiro se repetia. Torcedoras que gritavam eram chamadas de histéricas. As que vaiavam, de vulgares. Apenas muito recentemente mulheres passaram a ser aceitas nas arquibancadas sem serem hostilizadas.
E quanto mais normalizada se torna a presença delas, mais ataques o futebol feminino recebe. Não se trava uma guerra tão virulenta contra uma modalidade que apenas “não agrada”. A agressividade revela o medo da perda de um espaço exclusivo.
Há três perdas concretas para a estrutura masculina. A econômica: é preciso dividir verba e patrocínio. A discursiva: eles não são mais os únicos com autoridade – mulheres narram, comentam taticamente, apitam e treinam. E a simbólica, a mais intensa: quando mulheres lideram sob pressão, elas destroem o mito de que força e liderança são virtudes exclusivamente masculinas.
Se as mulheres não são frágeis, os homens não precisam protegê-las. Se podem trabalhar e ganhar dinheiro, eles não são os únicos provedores. Se podem liderar, eles não estão mais no topo como detentores exclusivos da autoridade.
A Copa do Mundo de 2027, a primeira Copa Feminina no Brasil, será a nossa ocupação definitiva. O desafio não será lotar estádios. Nós vamos lotar. O desafio será o que faremos no dia seguinte. Se, depois de um mês dividindo narração, apito, comentário tático e arquibancada, o país entenderá finalmente que o país do futebol sempre foi também o país das mulheres que ousaram jogar bola na clandestinidade e na legalidade. Sem estrutura e sem uniformes adequados. Sem apoio e sem validação. Sem salário e sem transmissão.
Para os pretos, o drible foi um ato de sobrevivência. Para as mulheres, todas as mulheres que atuam no futebol, somos a continuidade desse drible.
Somos as que jogaram descalças na terra batida. Somos as que apitam sendo xingadas. Somos as que narram sendo ridicularizadas. Somos as que treinam sem verba. Somos as que lotam a arquibancada sendo hostilizadas.
Se o drible preto transformou a opressão em arte, a permanência das mulheres no futebol transforma a exclusão em ocupação.
É por isso que a Copa de 2027 nos assusO Brasil é o país do futebol. O esporte não nasceu aqui, mas foi definitivamente reinventado aqui. A ginga e o drible tornaram o futebol tão belo porque transformaram opressão em arte e sobrevivência. Para não sofrer punição violenta por tocar em brancos nos primórdios do esporte, os jogadores pretos ressignificaram o jogo, subvertendo o racismo estrutural em improviso e criatividade corporal. Da resistência, nasceu a genialidade. A liberdade negada nas ruas era conquistada no campo.
Para as mulheres, a história foi oposta.
Até os anos 1940, vivemos um apartheid de gênero no futebol. As esposas e filhas da elite se apresentavam nos clubes em festivais de caridade, como entretenimento da alta sociedade. Enquanto isso, nos subúrbios e periferias, majoritariamente pretas e pardas, operárias e lavadeiras, jogavam em campos de terra batida. Lá, o futebol feminino teve uma explosão popular que assustou a elite e motivou o Estado a agir.
Em 1941, o Decreto-Lei 3.199, do governo Vargas, proibiu às mulheres a prática de esportes “incompatíveis com a sua natureza”. O futebol estava na lista. Quem continuou jogando na clandestinidade, por quatro décadas, foram justamente as mulheres mais pobres, em sua maioria negras.
O estrago foi estrutural. Justamente nas décadas de popularização e profissionalização do esporte, o futebol foi restrito aos homens. Eles estruturaram clubes, estádios, ligas, federações e salários. Enquanto a sociedade patriarcal incentivava meninos a jogar desde pequenos, propagava que o futebol tornaria as mulheres inférteis e masculinizadas.
Nunca se tratou apenas de mulheres jogando bola. Tratou-se da ressignificação do papel do homem. A aceitação dos homens negros no futebol não ameaçava a hierarquia patriarcal. A presença das mulheres, sim. Se elas podiam correr, empurrar, dividir jogadas duras e suportar dor, o argumento do sexo frágil caía por terra.
Esse medo era tão virulento que, quando o direito de jogar foi reconquistado em 1979 – regulamentado apenas em 1983 -, regras absurdas foram impostas: dois tempos de 35 minutos porque mulheres não teriam resistência para 45; bola mais leve e menor; chuteiras sem travas; proibição de profissionalização e de cobrança de ingressos.
Fora de campo, o roteiro se repetia. Torcedoras que gritavam eram chamadas de histéricas. As que vaiavam, de vulgares. Apenas muito recentemente mulheres passaram a ser aceitas nas arquibancadas sem serem hostilizadas.
E quanto mais normalizada se torna a presença delas, mais ataques o futebol feminino recebe. Não se trava uma guerra tão virulenta contra uma modalidade que apenas “não agrada”. A agressividade revela o medo da perda de um espaço exclusivo.
Há três perdas concretas para a estrutura masculina. A econômica: é preciso dividir verba e patrocínio. A discursiva: eles não são mais os únicos com autoridade – mulheres narram, comentam taticamente, apitam e treinam. E a simbólica, a mais intensa: quando mulheres lideram sob pressão, elas destroem o mito de que força e liderança são virtudes exclusivamente masculinas.
Se as mulheres não são frágeis, os homens não precisam protegê-las. Se podem trabalhar e ganhar dinheiro, eles não são os únicos provedores. Se podem liderar, eles não estão mais no topo como detentores exclusivos da autoridade.
A Copa do Mundo de 2027, a primeira Copa Feminina no Brasil, será a nossa ocupação definitiva. O desafio não será lotar estádios. Nós vamos lotar. O desafio será o que faremos no dia seguinte. Se, depois de um mês dividindo narração, apito, comentário tático e arquibancada, o país entenderá finalmente que o país do futebol sempre foi também o país das mulheres que ousaram jogar bola na clandestinidade e na legalidade. Sem estrutura e sem uniformes adequados. Sem apoio e sem validação. Sem salário e sem transmissão.
Para os pretos, o drible foi um ato de sobrevivência. Para as mulheres, todas as mulheres que atuam no futebol, somos a continuidade desse drible.
Somos as que jogaram descalças na terra batida. Somos as que apitam sendo xingadas. Somos as que narram sendo ridicularizadas. Somos as que treinam sem verba. Somos as que lotam a arquibancada sendo hostilizadas.
Se o drible preto transformou a opressão em arte, a permanência das mulheres no futebol transforma a exclusão em ocupação.
É por isso que a Copa de 2027 nos assusta tão pouco e os assusta tanto. Nós já sobrevivemos a tudo, sem nada. Imagine o que faremos agora, com tudo.ta tão pouco e os assusta tanto. Nós já sobrevivemos a tudo, sem nada. Imagine o que faremos agora, com tudo.

