
Antes de qualquer coisa, é preciso reconhecer a dificuldade do trabalho, porque não é uma tarefa fácil. Imagine pegar um clube que terminou o ano campeão brasileiro e da Libertadores, comandado pelo treinador mais promissor do país, com o maior orçamento do continente, e em apenas sete meses eliminar esse time da Copa do Brasil, colocá-lo cada vez mais longe da briga pelo título nacional e sem razões para otimismo no torneio continental? Exige foco, exige trabalho, exige talento.
Mas tudo começa, é claro, com planejamento. Ou, pra ser mais claro, com a decisão de não cumprir o planejamento. Você renova com um treinador valorizado, guarda rancor por essa valorização, aí obriga a equipe principal a estrear antes que ela esteja preparada e demite esse treinador porque a equipe principal, nesses jogos de estreia, não parecia estar preparada. Pegou a manobra retórica? Entendeu a malícia e a sinuosidade do pensamento?
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Então você demite esse treinador campeão, alegando que o time oferece um desempenho irregular e que a postura dele é permissiva. E esse novo treinador que você contrata, ele é campeão? Não exatamente. Ele melhorou o desempenho do time? Na verdade não. Ele pelo menos é disciplinador? Bem, Carrascal, que vinha jogando mal, foi expulso de maneira infantil num confronto direto pelo título do Brasileiro, em seu lugar entrou Lorran, que vinha jogando bem, mas, assim que cumpriu sua suspensão, Carrascal retornou ao time. Para jogar mal de novo. Cada um tira daí a conclusão que quiser.
E mais um passo importante nessa empreitada de destruição, nessa arquitetura da vergonha, nessa engenharia do fracasso, foi dada nesta quarta-feira, com o impressionante empate diante do Internacional, uma equipe que não havia marcado sequer um ponto nas últimas quatro partidas, com derrotas seguidas para Vitória, Bragantino, Cruzeiro e Athletico-PR. Mas eles obviamente não contavam com a contundência do projeto apresentado pelo Clube de Regatas do Flamengo.
Porque o que se viu durante o primeiro tempo, em Porto Alegre, foi não apenas um retrato da total e completa indigência esportiva, mas um retrato da total e completa indigência esportiva tirado por Sebastião Salgado, pra ficar mais triste, usando a câmera suja de gordura de um Nokia antigo, pra ficar mais feio. Faltava tática, faltava técnica, faltava vontade, era um checklist completo de todas as ausências possíveis em um time de futebol.
No segundo tempo as coisas melhoraram? Sim, mas muito menos do que deveriam. Os jogadores que saíram de campo nem deveriam ter entrado, o sistema tático da equipe parecia ser “correr e rezar” e o empate veio muito mais por conta do Internacional ter abdicado totalmente da partida e abraçado o 1×0 do que por mérito da equipe rubro-negra.
Com a distância para o Palmeiras na tabela e a proximidade do confronto com o Cruzeiro pela Libertadores, vai se desenhando com certa clareza um possível cenário em que o Flamengo, que em janeiro era favorito a todos os títulos, pode chegar ao fim do mês de agosto sem brigar por troféu algum. Tudo mérito do incrível trabalho de José Boto e Luiz Eduardo Baptista, dois homens que parecem ter mais ódio do torcedor rubro-negro do que qualquer organizada de time rival. Não era fácil, mas em noites como a desta quarta-feira, a sensação é a de que eles realmente estão conseguindo.
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