
A declaração de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, sobre a paralisação do calendário brasileiro durante a Copa do Mundo Feminina de 2027 rapidamente virou mais uma disputa polarizada nas redes sociais. Parte dos comentários transformou a fala em uma suposta rejeição ao futebol feminino, enquanto outra parcela aproveitou o momento para atacar a modalidade de forma generalizada.
O presidente do Flamengo não discutiu a existência ou a importância da Copa Feminina. O ponto levantado foi sobre calendário, fluxo de caixa dos clubes e os impactos de mais uma paralisação em uma temporada já congestionada.
O problema é transformar uma discussão técnica em uma disputa sobre quem apoia ou não o futebol feminino.
Quando o debate já começa nesse ponto, ele deixa de responder as perguntas que realmente importam. Como organizar o calendário? Como preservar os clubes financeiramente? Como garantir que a Copa Feminina seja valorizada sem ignorar a realidade de quem mantém o futebol brasileiro funcionando?
BAP está certíssimo, paralisar o futebol masculino por causa da Copa do Mundo de futebol feminino é absurdo.
— Mauro Cezar (@maurocezar) July 26, 2026
Um mês sem jogar é um mês sem receitas com todas as despesas correndo normalmente. pic.twitter.com/Nxa6KyoUvl
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O impacto financeiro da paralisação para Copa Feminina
Bap utilizou como exemplo a Copa do Mundo masculina de 2026 para defender que as interrupções do calendário geram prejuízos aos clubes. Segundo o dirigente, o Flamengo ficou mais de 70 dias sem receitas durante a paralisação, enquanto continuou arcando normalmente com salários, direitos de imagem e demais custos operacionais.
Embora o Flamengo tenha uma situação financeira diferente da maioria dos clubes brasileiros e consiga absorver melhor períodos sem partidas, o problema citado pelo presidente atinge principalmente equipes com menor capacidade de geração de receita.
A ausência de jogos significa perda de bilheteria, queda no consumo relacionado ao matchday, redução de receitas comerciais e pressão sobre um caixa que continua tendo despesas fixas. Para clubes que dependem diretamente da arrecadação de cada rodada, semanas sem partidas representam um impacto relevante.
A questão também aparece em um cenário de calendário cada vez mais pressionado. Em 2025, houve paralisação pela Copa do Mundo de Clubes. Em 2026, pela Copa do Mundo masculina. Em 2027, pela Copa do Mundo Feminina. E ainda existe a incerteza sobre como competições futuras, como a Copa América de 2028, irão impactar o futebol nacional.
O debate, portanto, não deveria ser apenas sobre “parar ou não parar”, mas sobre como dividir os custos dessas decisões.
O crescimento do futebol feminino também depende de clubes fortalecidos
Existe ainda outro ponto que precisa ser tratado com sinceridade.
O futebol feminino brasileiro está em desenvolvimento, mas a realidade financeira da modalidade ainda é distante da encontrada no futebol masculino. Na maioria dos clubes, inclusive no Flamengo, a operação feminina depende dos recursos gerados principalmente pelo futebol masculino.
Isso não significa que o investimento na modalidade seja errado, pelo contrário. O crescimento passa justamente pela ampliação de estrutura, visibilidade e recursos.
Mas existe uma contradição quando uma decisão tomada em nome do fortalecimento do futebol feminino pode gerar dificuldades financeiras para as operações que são responsáveis por manter esses projetos funcionando.
Se uma paralisação provoca perda de receita, o efeito pode atingir justamente a modalidade feminina, algo que já vimos acontecer. Até por isso, defender uma discussão sobre os impactos financeiros não deveria ser interpretado como um ataque ao futebol feminino.
A pergunta que deveria ser feita: os clubes foram ouvidos?
Talvez o principal problema dessa discussão seja a ausência de explicação sobre como a decisão foi tomada pela CBF.
Os clubes foram consultados? Existe um planejamento financeiro para compensar o período sem jogos? Foram discutidas alternativas, como partidas em outros estádios ou ajustes no calendário? Houve uma tentativa de encontrar um modelo que preserve a realização da Copa sem causar impactos tão grandes aos participantes do Brasileirão?
São perguntas que deveriam fazer parte do debate.
A realização da Copa do Mundo Feminina no Brasil possui uma importância histórica. Será a primeira edição do torneio na América do Sul e representa uma oportunidade gigante de desenvolvimento da modalidade. É claro que os principais estádios são necessários e a organização do evento exige adaptações.
Mas também é evidente que uma decisão dessa dimensão também precisa considerar o interesse dos clubes que movimentam o futebol nacional durante todo o ano.
O problema é a falta de debate
A fala de Bap também está inserida nesse contexto. O presidente do Flamengo possui um histórico de declarações que geram críticas em relação ao futebol feminino e muitos torcedores interpretam sua postura como falta de valorização da modalidade. Ele é acusado de tratar a modalidade apenas como obrigação e parece não fazer questão de mudar essa visão.
Essa percepção existe e faz parte do debate. Mas uma coisa não elimina a outra.
Uma declaração sobre calendário e impacto financeiro precisa ser analisada pelo conteúdo, não apenas pela opinião que parte das pessoas já possui sobre quem fez a declaração.
Da mesma forma, utilizar essa discussão para atacar o futebol feminino ou questionar a importância da modalidade também representa uma fuga do debate.
A Copa do Mundo Feminina merece ser valorizada. Os clubes precisam ter suas dificuldades consideradas. A CBF precisa encontrar equilíbrio entre os interesses envolvidos.
No fim, o maior problema não é existir discordância. É não existir espaço para uma conversa real antes que todos escolham um lado.
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