Há exatos 90 anos, em 18 de julho de 1936, o Flamengo entrava em campo contra o América Mineiro para um amistoso no Rio de Janeiro que, à primeira vista, não tinha nada de histórico. Só que aquele jogo marcava a estreia de um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro com a camisa rubro-negra: Leônidas da Silva.
Leônidas chegou ao Flamengo como dono do próprio passe, depois de um desentendimento com a diretoria do Botafogo, clube que, segundo relatos da época, não queria manter um jogador negro no elenco, mesmo após o título estadual de 1935. Na Gávea, ao lado de outro reforço de peso, o zagueiro Domingos da Guia, o atacante encontrou o ambiente ideal para se tornar uma lenda.
A chegada movimentou a imprensa esportiva carioca. Um dos jornais da época já destacava Leônidas como a grande atração da estreia contra o América Mineiro, adversário badalado que vivia bom momento. O apelido que marcaria sua carreira, “Diamante Negro”, começava a circular mesmo antes da primeira partida oficial pelo clube.
O que ninguém esperava era o resultado daquela noite. Contra todas as expectativas, o Flamengo saiu derrotado, em um jogo que, décadas depois, se tornaria apenas o primeiro capítulo de uma das trajetórias mais importantes da história do clube.
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A expectativa antes da estreia

A badalação em torno da chegada de Leônidas ao Flamengo já tomava as páginas esportivas dias antes da bola rolar. Um jornal da época descrevia o clima de expectativa em torno da partida:
“Sob todos os aspectos a partida interestadual que se realiza hoje, a noite, promette ter caracteristicas sensacionaes. Os dois quadros se apresentarão decididos a proporcionar uma peleja empolgante, cheia de atractivos e lances sugestivos, ao par público que a for assistir.”
Em entrevista publicada na capa de um dos jornais, o próprio Leônidas comentou a expectativa em torno de sua estreia:
“Não posso deixar de agradecer as referências feitas a mim quando da minha transferência do Botafogo para o Flamengo. Hoje à noite, na peleja com o América de Belo Horizonte, estarei firme, integrado no sentimento rubro-negro. Sei que a rapaziada se empenhará numa reabilitação ampla, pois não ficou satisfeita com a última exibição. Todos poderão contar comigo. Hei de fazer tudo para jogar bem, sem preocupações outras senão a de conseguir auxiliar uma vitória rubro-negra.”
O América-MG x Flamengo: uma zebra na estreia

Contra o favoritismo esperado em torno do time da capital, quem levou a melhor foi o time mineiro. A manchete de um dos jornais resumiu o resultado em letras garrafais:
“Uma Victoria Sensacional Do America Mineiro! Depois de estar vencendo por 2 x 1, no primeiro tempo, o Flamengo cede por 4 x 2 á melhor actuação do conjunto de Belo Horizonte.”
O resultado teve tanta repercussão que a imprensa de Belo Horizonte estampou a vitória na capa do dia seguinte, com a manchete: “Brilhantissima vitória do América: a turma rubra, atuando admiravelmente, abateu o Flamengo, no noturno de ontem, por 4 x 2.”
A avaliação do craque
A análise reservou um trecho específico para avaliar a estreia de Leônidas. O texto apontou que o craque pouco pôde fazer para mudar o cenário do jogo, mas destacou também como o jogador assumiu com naturalidade o papel de protagonista do plantel.
“Leonidas não pôde apparecer numa exhibição destacada. Foi, porém, a figura maxima da linha avante. Ao lado de Jarbas conseguiu evidenciar-se facilmente. Médio estreou agindo muito bem no primeiro tempo. Quando viu-se na contingencia de trabalhar na defensiva produziu menos.”
Primeiro gol saiu dias depois
A sequência de estreias contra clubes mineiros não parou por aí. Dias depois do confronto com o América, o Flamengo enfrentou o Palestra Itália, atual Cruzeiro, no Estádio do Barro Preto, em Belo Horizonte, em um duelo que colocava frente a frente os dois centroavantes que, dois anos depois, disputariam posição na Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938: Leônidas, titular, e Niginho, seu reserva na França.
A partida terminou empatada por 2 a 2, com os dois artilheiros deixando sua marca. Foi ali, aos 40 minutos do primeiro tempo, em cobrança de pênalti, que Leônidas marcou seu primeiro gol com a camisa do Flamengo, o primeiro dos 149 que viria a marcar pelo clube.
O que aquele jogo iniciou: a trajetória histórica de Leônidas da Silva no Flamengo

A estreia discreta e a derrota logo na primeira partida não impediram o início de uma das passagens mais marcantes da história do clube. A chegada de Leônidas coincidiu com um momento de transformação do Flamengo, na gestão do presidente José Bastos Padilha, iniciada em 1933, quando o clube passou a contratar jogadores negros em maior escala, algo raro no futebol brasileiro da época.
Nomes como Domingos da Guia, Fausto dos Santos e o próprio Leônidas ajudaram a mudar o perfil da torcida rubro-negra.
Segundo o jornalista Roberto Assaf, autor de diversos livros sobre a história do clube, a proximidade entre a sede da Gávea e a Favela da Praia do Pinto teve um papel simbólico na popularização do Flamengo entre a população mais pobre do Rio de Janeiro, e Leônidas foi peça central nesse processo.
Dois anos depois de sua estreia, o atacante se consagrou artilheiro da Copa do Mundo de 1938, na França, com 7 gols, e ganhou do mundo o apelido que o acompanharia para sempre: Diamante Negro. A repercussão do Mundial, o primeiro transmitido ao vivo pelo rádio, elevou ainda mais a popularidade do jogador e, por consequência, do próprio Flamengo.
Ao longo de sua passagem pelo clube, que durou até 1942, Leônidas da Silva disputou 148 jogos oficiais e marcou 149 gols. Com ele em campo, o Flamengo venceu 92 partidas, empatou 28 e perdeu 28. Na Gávea, o atacante conquistou o Campeonato Carioca de 1939 e o Torneio Rio-São Paulo de 1940.
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