Ruan Miranda tinha o vôlei como esporte preferido e resistia às investidas da tia, uma das maiores jogadoras da história do basquete brasileiro. Hoje, o maranhense é um dos principais pivôs do país, com passagens pela G-League, títulos pelo Flamengo e convocações para a Seleção Brasileira.
Aos 25 anos, Ruan Michel Marques Miranda, de 2,07m e 115kg, superou uma grave lesão no joelho e está de volta para seguir escrevendo seu nome na história do clube que o formou. O Jornal do Fla fez um perfil especial sobre cada jogador do elenco do FlaBasquete para temporada 2026/27 do NBB, a série continua com o pivô cria do Orgulho da Nação.
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Vida pessoal: da resistência ao basquete à tradição de família
Nascido em 7 de julho de 2001 em São Luís (MA), Ruan cresceu em uma família profundamente ligada ao esporte. É sobrinho de Iziane Castro, ex-jogadora da seleção brasileira feminina que disputou duas Olimpíadas e tem passagem pela WNBA. A tia, percebendo o potencial do sobrinho, fez de tudo para despertar seu interesse pelo basquete — levando-o a jogos, presenteando-o com bolas e roupas e o inserindo no ambiente da modalidade.
Mas o caminho não foi direto. Apesar da família majoritariamente basqueteira, a preferência do “pequeno” Ruan era o vôlei. Foi só em 2014, aos 13 anos, que a seleção maranhense o convidou para participar de um campeonato de basquete. A experiência o conquistou, e ele adentrou de vez na modalidade.

Aos 15 anos, Ruan já treinava com o time profissional do Flamengo. Sobre esse momento, ele define como um divisor de águas: “Foi um sonho se tornar realidade estar em um time deste porte, com uma estrutura gigantesca e uma imensa tradição. Eu sabia que precisava aproveitar essa oportunidade e dar o meu melhor”.
Em 2019, o pivô testou positivo para COVID-19 assintomático e com isso, acabou não participando da final do Campeonato Carioca sub-19 vencida pelo Flamengo. Por sorte, Ruan não carrega sequelas do caso.
Carreira: da base ao exterior e o retorno como protagonista
A formação na Gávea e os primeiros títulos
Ruan chegou ao Flamengo em 2017 para integrar as categorias de base. Foi promovido ao time principal ainda adolescente e, entre 2017 e 2021, conquistou dois títulos do NBB, duas Copas Super 8 e uma Basketball Champions League Americas (BCLA).

Apesar dos títulos, o tempo de quadra era limitado. Ruan absorveu a experiência ao lado de jogadores mais experientes e entendeu que precisava ser paciente. Em busca de mais oportunidades, deixou o Flamengo ao final da temporada 2021.
A consolidação no Cerrado e o reconhecimento nacional
Ruan seguiu para o Cerrado Basquete, onde viveu sua explosão. Em duas temporadas, foram 62 jogos com médias de 13,7 pontos e 7,4 rebotes. Foi eleito o MVP da LDB em 2022 e o Destaque Jovem do NBB 2022/2023, com médias de 15,4 pontos, 8,0 rebotes e 17,2 de eficiência em 31 jogos.

A experiência internacional e o retorno ao Flamengo
Ruan deu o salto internacional em 2023/24, atuando pelo Capitanes de la Ciudad de México, na G-League — a liga de desenvolvimento da NBA — e pelo Venados de Mazatlán, no México.
Em outubro de 2024, o Flamengo anunciou seu retorno. Ruan celebrou: “A sensação de retornar ao Flamengo é de muita euforia… volto mais experiente, com muita vontade de agregar ao time em busca de títulos”. E completou: “Voltei para deixar minha marca na história do Flamengo”.

E o impacto foi imediato. Ruan foi o cestinha rubro-negro na final da Super 8, com uma defesa decisiva nos segundos finais que garantiu o título. Na temporada 2024/25, teve médias de 11,7 pontos e 5,8 rebotes, consolidando-se como titular absoluto.
A lesão na Seleção e a recuperação
Em agosto de 2025, durante a partida contra os Estados Unidos pela AmeriCup na Nicarágua, Ruan sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho direito. A lesão o afastou por toda a temporada 2025/26. A cirurgia de reconstrução, realizada em setembro de 2025, foi bem-sucedida, com previsão de recuperação entre seis e nove meses.
Ruan passou por um longo processo de reabilitação e, em meados de 2026, retornou aos treinos. Sua permanência no Flamengo para a temporada 2026/27 foi confirmada, e ele está recuperado para a sequência da carreira.
Basquete 3×3: uma carreira paralela de sucesso
Além de sua trajetória no basquete de quadra (5×5), Ruan Miranda construiu uma carreira paralela de destaque no basquete 3×3, modalidade que entrou no programa olímpico em Tóquio 2020. Sua versatilidade o tornou uma peça fundamental para a seleção brasileira na versão reduzida do esporte.
O grande marco dessa trajetória veio em 2023, quando Ruan integrou o quarteto formado por Jefferson Socas, Léo Branquinho, Jonatas Mello e ele próprio na Copa do Mundo de Basquete 3×3, realizada em Viena, na Áustria. Logo em seu primeiro torneio internacional na modalidade, o Brasil alcançou a quarta colocação — a melhor posição da história do país na competição.

A campanha brasileira foi memorável: na fase de grupos, a equipe venceu Alemanha, França e Madagascar, perdendo apenas para a Sérvia, e avançou em segundo lugar. Nas oitavas de final, passou pelo Japão e, nas quartas, eliminou a Polônia em uma partida histórica. Na semifinal, o Brasil caiu para os Estados Unidos por 21 a 18 e, na disputa pelo bronze, perdeu para a Letônia, atual campeã olímpica, encerrando a participação na quarta posição. Ruan contribuiu com 23 pontos e 31 rebotes ao longo do torneio.
Ainda em 2023, Ruan foi convocado para representar o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile. O time masculino, mantendo a mesma base do Mundial, foi eliminado nas quartas de final para Trindade e Tobago. Ruan anotou 10 pontos nos três jogos da competição (4, 4 e 2).
Antes disso, em 2022, Ruan já havia conquistado o ouro nos Jogos Sul-Americanos de Assunção pela seleção de 3×3, consolidando seu nome como uma das revelações da modalidade no país.
Seleção Brasileira: da convocação à lesão e o retorno
A trajetória de Ruan Miranda na Seleção Brasileira começou de forma inesperada, mas marcante. Em novembro de 2024, o pivô foi convocado pelo técnico Aleksandar Petrovic para substituir Lucas Dias, do Sesi Franca, que havia sido cortado por uma lesão no púbis.
Ruan fez sua estreia pela Seleção Brasileira em 25 de novembro de 2024, na vitória sobre o Panamá por 84 a 66, na Arena Guilherme Paraense, em Belém. O pivô maranhense anotou 4 pontos, 5 rebotes e 2 assistências em sua primeira partida com a amarelinha

O ponto alto de sua trajetória na seleção veio em 2025, quando Ruan integrou o elenco que disputou a FIBA AmeriCup na Nicarágua. O pivô vinha sendo peça importante na rotação, com médias de 8,5 pontos e 4,5 rebotes por jogo, até sofrer a lesão que o afastou da fase decisiva. O Brasil, mesmo com a baixa, seguiu firme e conquistou o título continental — o primeiro desde 1988.
Em agosto de 2026, Ruan foi reconvocado por Aleksandar Petrovic para os jogos contra República Dominicana e México, válidos pela segunda fase das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2027.
Estilo de jogo: a força de um titã no garrafão
Ruan Miranda é a personificação do pivô moderno: imponente, físico e dominante. Com seus 2,07m e 115kg, ele é descrito como um “titã” no garrafão, utilizando sua força para proteger o aro, disputar rebotes e finalizar com alta eficiência — seu aproveitamento de quadra chegou a 67,6% na temporada.
Ofensivamente, é um finalizador consistente próximo à cesta e um reboteiro agressivo. Na temporada 2024/25, teve médias de 11,7 pontos e 5,8 rebotes, com atuações de destaque como os 20 pontos e 11 rebotes na semifinal do NBB contra o Sesi Franca.
Defensivamente, sua presença física intimida adversários e protege o aro. Sua evolução ao longo dos anos o transformou em uma das principais referências da posição no país. A capacidade de elevar o nível em jogos decisivos — como na final da Super 8, onde foi cestinha e protagonista de um lance defensivo crucial — demonstra sua maturidade e personalidade.
Estatísticas
| Competição | Temporada | Jogos | Pontos | Rebotes | Eficiência |
|---|---|---|---|---|---|
| NBB (Cerrado) | 2022/23 | 31 | 15,4 | 8,0 | 17,2 |
| NBB (Cerrado) | Total | 62 | 13,7 | 7,4 | 15,8 |
| NBB (Flamengo) | 2024/25 | 43 | 11,7 | 5,8 | — |
| AmeriCup | 2025 | 3 | 8,5 | 4,5 | — |
Títulos e prêmios
Pelo Flamengo (2017–2021):
- Bicampeão do NBB
- Bicampeão da Copa Super 8
- Campeão da BCLA
Pelo Flamengo (2024–2025):
- Campeão da Copa Super 8
Pela Seleção Brasileira:
Destaques individuais:
A trajetória de Ruan Miranda é a história de um talento que resistiu à própria desconfiança inicial, superou lesões, rodou o mundo e voltou para casa mais forte.
Das categorias de base ao protagonismo na Gávea, o “cria” maranhense provou que o DNA rubro-negro corre em suas veias, e que, mesmo após uma lesão grave, ele está pronto para deixar sua marca na história do FlaBasquete.
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