Em Cachoeiro do Itapemirim, uma pequena cidade do interior do Espírito Santo, uma avó já chamava o neto de “Didizinho” antes mesmo de a mãe escolher seu nome. Marcos Henrique Louzada Silva, o Didi Louzada, construiu uma trajetória de superação que o levou do interior capixaba ao Draft da NBA, com passagens pela Austrália, pelo Japão e pela G-League.
Agora, aos 27 anos, Didi está de volta ao Flamengo para sua segunda passagem pelo clube, mais maduro, mais experiente e com a missão de liderar a reconstrução do FlaBasquete. O Jornal do Fla fez um perfil especial sobre cada jogador do elenco do FlaBasquete para esta temporada do NBB, seguindo a série com o guerreiro que veio do topo do mundo para o Orgulho da Nação.
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Vida pessoal: das origens em Cachoeiro ao apelido de família
Nascido em 2 de julho de 1999 em Cachoeiro do Itapemirim, interior do Espírito Santo, Didi cresceu em uma família humilde e unida. A maior parte de seus parentes vive na pequena cidade capixaba, distante 139 km da capital, Vitória.
Em uma pequena casa num bairro humilde, Didi viveu toda sua infância ao lado da mãe Rosane, do padrasto Riva (a quem ele faz questão de chamar de pai), do irmão João Pedro e da avó Tereza. Sua mãe sempre fez o possível e o impossível para dar uma vida digna aos filhos, sendo descrita como uma mulher coruja que “sempre ficou na cola de Didi e seu irmão para garantir que o caminho seguido fosse o correto”.
O basquete surgiu na vida de Didi aos oito anos, através da influência de primos e primas que já praticavam o esporte. O apelido “Didi”, no entanto, veio muito antes: foi presente de sua avó, que antes mesmo da mãe escolher o nome da futura estrela do basquete brasileiro, já o chamava carinhosamente de “Didizinho”.
Aos 15 anos, após se destacar em diversos campeonatos de base e ser convocado para a Seleção Brasileira, Didi deixou Cachoeiro para integrar o elenco do Sesi Franca. Foi lá que se desenvolveu como jogador e se tornou uma das maiores promessas do basquete brasileiro, conquistando a atenção até mesmo da NBA.
Carreira: da base ao Draft da NBA e o retorno ao Brasil
A formação no Franca e o Draft histórico
Revelado nas categorias de base do Sesi Franca, Didi construiu sua reputação no basquete brasileiro com atuações consistentes e um potencial que chamou a atenção dos olheiros internacionais. Em 2019, aos 19 anos, ele fez história ao ser selecionado na 35ª posição do Draft da NBA pelo Atlanta Hawks, sendo posteriormente negociado com o New Orleans Pelicans.
A escolha quebrou um tabu de cinco anos para o basquete brasileiro, que não tinha um atleta recrutado desde Bruno Caboclo em 2014.
A experiência na Austrália e a chegada à NBA
Antes de pisar em uma quadra da NBA, Didi foi emprestado ao Sydney Kings, da Austrália, onde passou duas temporadas na NBL. A experiência foi fundamental para seu amadurecimento como jogador e como homem.
Em sua despedida da equipe australiana, ele declarou: “Fui muito bem recebido na cidade, pela equipe e fãs, todos me trataram com carinho e respeito. Sou grato por tudo que aprendi… Esses dois anos foram importantes na minha evolução e no meu amadurecimento como homem e jogador. Hoje sou um jogador mais pronto, mais preparado para a NBA”.
Sobre o aprendizado na Austrália, Didi ressaltou: “O que eu aprendi na Austrália é jogar forte o tempo inteiro. É um basquete muito mais físico, eu aprendi muito lá. Foram os anos mais importantes da minha carreira. Desenvolvi na língua inglesa, que era uma barreira para mim”.

Em 2021, Didi finalmente assinou com o New Orleans Pelicans, tornando-se o 18º brasileiro na história da NBA. Em sua estreia, ele desabafou: “A ficha ainda não caiu que eu fiz meus primeiros pontos na NBA, porque era meu sonho”. O ala foi trocado no ano seguinte para o Portland Trail Blazers, onde teve pouco tempo de jogo.
A passagem de Didi pela NBA, no entanto, foi marcada por lesões que limitaram suas oportunidades. Em entrevista ao LNB, ele avaliou: “Tive poucas oportunidades na NBA por conta das minhas lesões, infelizmente. Na G-League, quando comecei a jogar bem e ter confiança em mim, voltei a sofrer lesões, retrocedi bastante. Mas no geral, acredito que a passagem foi boa, tive muito aprendizado, enfrentei e conversei com ótimos jogadores, falava com os técnicos, tentava de tudo para melhorar”.
A primeira passagem pelo Flamengo
Em 2023, Didi retornou ao Brasil para jogar pelo Flamengo, clube do qual é torcedor desde criança. Ao ser anunciado, ele declarou: “A minha maior motivação foi o time. Me apresentaram um trabalho que me agradou muito, principalmente pela maneira que eu vou jogar e pela motivação da equipe ao longo do ano.
Além disso, é claro que o fato de eu ser rubro-negro pesou muito. Sou flamenguista desde pequeno e poder representá-lo é algo grandioso pra mim”. Naquela temporada, foi campeão da Copa Super 8 com o clube.
O título do NBB e o MVP das Finais
Em 2024, Didi retornou ao Sesi Franca, sua casa de formação. A decisão veio com uma declaração carregada de emoção:
“Estou muito feliz em voltar para Franca, uma cidade que me acolheu quando era ainda bem novo, me deu oportunidade de realizar o meu sonho de ser um jogador profissional e pela qual tenho um enorme carinho. É muito bom voltar para esta cidade que respira basquete, voltar a jogar diante de uma torcida tão apaixonada, e reencontrar velhos amigos”. Ele completou: “Volto mais experiente, bem diferente do garoto que saiu daqui há alguns anos, mais maduro e com a mesma vontade de fazer história”.

A temporada 2024/25 foi o auge de Louzada. Didi liderou o Sesi Franca ao tetracampeonato do NBB, sendo eleito o MVP das Finais com médias de 20 pontos, 5,5 rebotes e 2,7 assistências na série contra o KTO Minas. Após a conquista, ele afirmou: “Consegui trazer isso de volta, campeão, primeiro título no NBB e MVP. Não podia ser melhor, ter um gostinho maior ainda por ser em Franca, minha casa. Estou bem emocionado e muito feliz mesmo”.
A temporada no Japão
Após o título, Didi atravessou o mundo para defender o Sunrockers Shibuya na B.League do Japão. A adaptação, no entanto, exigiu resiliência. “Os hábitos, a comida… tudo é muito diferente. A língua foi o mais difícil, embora tenha aprendido algumas frases e palavras importantes para o dia a dia”, contou.
Sobre o ritmo da liga japonesa, ele explicou: “A B. League é muito competitiva e disciplinada taticamente. Eles correm muito mais. A gente joga sempre de quarta, sábado e domingo. Quarta, sábado e domingo, sem parar. Então essa carga de jogos foi uma das primeiras coisas às quais tive que me adaptar”.
No meio da temporada, porém, o caminho ganhou um obstáculo: o retorno de uma hérnia de disco que o afastou das quadras por 100 dias. A recuperação aconteceu longe da família. Mesmo assim, ele fechou a temporada com médias de 13,9 pontos, 4,1 rebotes e 2,2 assistências, além de 36,5% de aproveitamento nos arremessos do perímetro.
O retorno ao Flamengo
Em junho de 2026, Didi foi anunciado como o primeiro reforço do Flamengo para a temporada 2026/27, com contrato de duas temporadas. Sobre o retorno, ele declarou:
“Estou muito feliz de estar voltando. Minha família também está feliz de retornar ao Brasil e jogar novamente pelo Flamengo. Temos um carinho enorme pelo Rio e pelo clube. A expectativa é grande. Estou voltando mais maduro depois de uma temporada muito boa no Japão, onde consegui impor meu ritmo de jogo em um basquete muito rápido e tática”.

Em sua apresentação oficial, Didi fez questão de reafirmar sua paixão pelo clube: “Todo mundo sabe que meu coração é rubro-negro. Nunca escondi isso. Sou Flamengo desde pequeno. Então, assim, estou muito feliz mesmo e espero que essa temporada seja de grande sucesso para a gente e de muitos títulos”.
Sobre sua evolução, ele afirmou: “O Didi que volta para o Flamengo é um Didi completamente diferente. Tive algumas adversidades na temporada passada no Japão, mas tenho certeza de que, jogando lá, eu fiquei mais preparado, com muito mais disciplina e resistência. Podem ter certeza de que não vai faltar entrega. Poder voltar a jogar no Flamengo é muito importante para mim”.
Seleção Brasileira: presença constante desde a base
Didi Louzada é presença constante na Seleção Brasileira desde a adolescência. Sua estreia pela equipe adulta aconteceu em setembro de 2018, nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2019, sob o comando de Aleksandar Petrovic. Em fevereiro de 2019, ele marcou 15 pontos na vitória sobre as Ilhas Virgens, ajudando o Brasil a garantir a classificação para o Mundial da China.
Na Copa do Mundo de 2019, Didi viveu um momento decisivo que marcou sua trajetória na seleção. Durante a partida contra a Grécia, ele cometeu uma falta polêmica a dois segundos do fim, quando o Brasil vencia por 79 a 76. O erro quase custou a vitória, mas serviu como aprendizado.
Os veteranos Alex Garcia, Leandrinho e Anderson Varejão o acolheram e o aconselharam. Didi relembrou: “Eles me abraçaram, falaram para eu não me preocupar que era de jogo. Ali na hora estava quente, cabeça quente, mas nos vestiários eles conversaram comigo, entendi o que eles passaram para mim e conseguir aprimorar”.

Nos anos seguintes, Didi se consolidou como peça regular da seleção. Em 2024, realizou o sonho de disputar as Olimpíadas de Paris, tornando-se o terceiro capixaba a jogar uma Olimpíada pelo basquete brasileiro, ao lado de Luiz Felipe e Anderson Varejão. Em entrevista, ele declarou: “Eu nunca imaginei que eu poderia alcançar tão cedo as Olimpíadas e estou bem feliz. Acho que é um passo a mais para a minha carreira, não só como jogador, mas também como pessoa”.
Em 2025, Didi integrou o elenco campeão da AmeriCup, devolvendo ao Brasil um título continental que não vinha desde 1988. Em agosto de 2026, foi novamente convocado por Aleksandar Petrovic para os confrontos contra República Dominicana e México, válidos pela segunda fase das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2027.
Estilo de jogo: a defesa como identidade e a evolução como atleta
Didi Louzada construiu sua carreira com base em uma característica que poucos jogadores brasileiros ostentam com tanto orgulho: a defesa. Desde sua chegada à NBA, ele deixou clara sua identidade dentro de quadra. Em entrevista ao site oficial do New Orleans Pelicans, ele afirmou: “Eu sou um jogador defensivo, então eu sempre quero marcar o melhor jogador do time adversário.”.
Essa mentalidade o acompanhou por toda a trajetória, da Austrália ao Japão, passando pela G-League e pela NBA. Sua capacidade atlética e versatilidade defensiva lhe permitem marcar múltiplas posições, sendo descrito como um jogador que “utiliza sua capacidade atlética, bem como alta capacidade defensiva, podendo defender múltiplas posições”.
Ofensivamente, Didi evoluiu significativamente ao longo dos anos. Seu arremesso de três pontos tornou-se uma arma consistente — na temporada 2024/25 pelo Franca, teve aproveitamento de 38,6% do perímetro. Na Austrália, aprendeu a “jogar forte o tempo inteiro”, incorporando uma intensidade física que o tornou mais completo.
Sua passagem pelo Japão, com um basquete “muito rápido e tático”, refinou ainda mais sua leitura de jogo e disciplina tática. Seja com bolas de três, infiltrações ou enterradas potentes, Didi se tornou um jogador de repertório amplo, capaz de decidir partidas nos momentos mais importantes.
O que define Didi, no entanto, vai além das estatísticas. É a entrega, a intensidade e a personalidade de quem não foge da responsabilidade. Na série final do NBB 2024/25, ele foi descrito como “incansável na defesa, letal no ataque e com o sangue frio para suportar os momentos mais decisivos”. Sua capacidade de elevar o nível de quem está ao lado e sua postura de liderança o transformaram em um jogador único, capaz de mudar a energia de uma equipe inteira com sua presença em quadra.
Estatísticas
| Competição | Temporada | Jogos | Pontos | Rebotes | Assistências |
|---|---|---|---|---|---|
| NBB (Sesi Franca) | 2024/25 | — | 15,6 | 4,3 | 2,4 |
| Finais do NBB | 2024/25 | 5 | 20,0 | 5,5 | 2,7 |
| B.League (Sunrockers Shibuya) | 2025/26 | 25 | 13,9 | 4,1 | 2,2 |
| NBL (Sydney Kings) | 2019-2021 | — | 8,7 | 3,2 | 1,8 |
| NBA Summer League | 2019 | — | 11,0 | 3,0 | 2,0 |
Títulos e prêmios
Pelo Sesi Franca:
- Campeão do NBB 2024/25 (MVP das Finais)
- Campeão Paulista 2018
- Campeão Sul-Americano 2019
Pelo Flamengo:
- Campeão da Copa Super 8 (2023/24)
Pela Seleção Brasileira:
- Campeão Sul-Americano Sub-21 (2018)
- Participação nas Olimpíadas de Paris 2024
- Convocado para as Eliminatórias da Copa do Mundo 2027
Destaques individuais:
- 35ª escolha do Draft da NBA 2019
- 18º brasileiro a jogar na NBA
- MVP das Finais do NBB 2024/25
Aos 27 anos, Didi Louzada retorna ao Flamengo no auge de sua maturidade, com a bagagem de uma carreira internacional que poucos jogadores brasileiros podem ostentar. Do interior do Espírito Santo ao Draft da NBA, passando por Austrália, Japão e os títulos mais importantes do basquete brasileiro, o “Didizinho da vovó” construiu uma trajetória de superação, disciplina e talento que inspira a próxima geração.
Agora, de volta à Gávea, ele promete entregar tudo em quadra para levar o Flamengo de volta ao topo, e, desta vez, com a certeza de que seu coração sempre foi, é e será rubro-negro.
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