
Uma dívida gigantesca, despesas que comprometem a capacidade de investimento e a necessidade de recuperar a confiança de quem coloca dinheiro na instituição. Foi diante de um cenário assim que o Flamengo iniciou, em 2013, uma transformação financeira que mudaria completamente o patamar do clube nos anos seguintes.
Treze anos depois, a recuperação rubro-negra foi utilizada como exemplo em uma discussão que extrapola o futebol. Durante sabatina da TV Globo nesta quarta-feira (26), o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) citou Flamengo e Palmeiras ao falar sobre a situação das contas públicas brasileiras.
“As medidas que Palmeiras e Flamengo adotaram para salvar esses times da quebradeira têm que ser adotadas para o Brasil sobreviver”, afirmou.
À parte do debate político e das propostas apresentadas pelo candidato, a comparação levanta uma questão. É possível encontrar na recuperação financeira do Flamengo princípios aplicáveis à administração do Brasil?
Antes, vale ressaltar que um clube de futebol e um país possuem estruturas completamente diferentes. O Brasil arrecada impostos, emite dívida e possui uma série de obrigações que não existem na administração do Rubro-Negro.
Portanto, não existe um “modelo Flamengo” que possa ser aplicado de maneira exata em Brasília.
Existem, contudo, princípios financeiros comparáveis. Exemplos de elementos importantes na transformação rubro-negra e aplicáveis ao país de alguma maneira são: diagnosticar o tamanho das obrigações, controlar o crescimento das despesas, renegociar passivos, recuperar credibilidade e ampliar receitas.
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Flamengo que precisava ser ‘salvo’
Quando a gestão de Eduardo Bandeira de Mello assumiu o clube, em 2013, encontrou uma situação financeira crítica. Uma auditoria realizada naquele ano calculou em R$ 750,7 milhões o total das dívidas do Flamengo.
O diagnóstico foi uma das primeiras etapas da reconstrução. A nova administração buscou identificar passivos, renegociar compromissos e recuperar as certidões negativas de débito, fundamentais para que o clube pudesse voltar a negociar em condições melhores.
Ao mesmo tempo, iniciou um processo de redução de despesas. Os cortes chegaram a diferentes departamentos e também atingiram o futebol. A lógica adotada naquele momento era que o Flamengo não poderia continuar assumindo compromissos incompatíveis com aquilo que conseguia arrecadar.
Foco no crescimento de receitas
A recuperação, contudo, não aconteceu somente pela redução das despesas. Enquanto controlava gastos, o Flamengo iniciou um movimento para diversificar e aumentar as suas receitas.
Patrocínios, direitos de transmissão, bilheteria, programa de sócio-torcedor, licenciamentos e valorização de jogadores da base ampliaram significativamente a capacidade financeira rubro-negra e seguem em crescimento em 2026.
A gestão fez a dívida se tornar menos problemática em duas frentes ao reduzir os custos e aumentar a capacidade de cumprir com as obrigações. Parte destes princípios permite o paralelo com o Brasil.
No caso de um país, um dos principais indicadores para avaliar o endividamento é a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, tanto as despesas e o endividamento quanto o crescimento da economia interferem na sustentabilidade.
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A própria situação atual do Flamengo ajuda a mostrar que não basta olhar para números brutos. Depois de anos reduzindo o endividamento e aumentando receitas, o clube passou a assumir gastos relevantes.
Isso não significa um retorno ao cenário encontrado de 2013. A diferença está na capacidade atual de geração de receitas, patrimônio adquirido, fluxo de caixa e proporção entre os compromissos assumidos e os recursos.
Esse princípio ajuda a entender por que comparar a dívida nacional com a antiga dívida do Flamengo é irrelevante. A provocação não visa comparar esses dados, mas sim propor uma discussão relacionada à trajetória da dívida e à capacidade de arcar com esses compromissos.
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Flamengo recuperou credibilidade no mercado
Outro elemento importante da reconstrução rubro-negra foi recuperar a credibilidade com bancos, empresas, patrocinadores e potenciais parceiros comerciais. Com maior previsibilidade, o clube negociou contratos melhores e passou a ter acesso a condições inacessíveis nos anos de desorganização.
Esse processo cria um “efeito bola de neve”. A melhora das contas aumentava a credibilidade; a credibilidade ajuda a ampliar receitas; e o aumento das receitas permite novos investimentos sem comprometer as finanças.
Para um país, confiança também possui impacto econômico, embora com aplicação distinta. A percepção de risco influencia juros cobrados para financiar a dívida pública, decisões de investimento e expectativas sobre a economia.
Onde a comparação encontra limites
É justamente na aplicação desses princípios que a comparação encontra seu principal limite. O Flamengo pôde reduzir despesas e aceitar, durante alguns anos, uma menor capacidade de investimento no futebol. Um país precisa lidar com gastos em áreas como Previdência, saúde, educação, programas sociais e investimentos públicos, além de obrigações previstas em lei.
A necessidade de melhorar a trajetória das contas públicas também não é um diagnóstico restrito a uma candidatura. Todos os candidatos reconhecem a necessidade de equilíbrio fiscal e controle da dívida, por exemplo. As diferenças estão nas medidas.
Quanto cortar, quais despesas reduzir, quanto aumentar a arrecadação, quem deve pagar mais impostos e mais medidas. É nesse ponto que os princípios utilizados pelo Flamengo não são respostas, ele não aponta para qual é o caminho ideal além da organização das contas.
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O Flamengo pode funcionar como exemplo?
A conclusão reforça que a análise não busca comparar números ou apontar ferramentas usadas pelo Flamengo que o Brasil poderia aplicar de forma exata. Administrar um clube e administrar um país são tarefas muito distantes.
Mas a reconstrução financeira do Flamengo oferece princípios sobre sustentabilidade das contas. Conhecer exatamente os compromissos, impedir que despesas cresçam constantemente acima da capacidade financeira, administrar dívidas, recuperar credibilidade e, principalmente, ampliar receitas.
O Flamengo também mostra que apenas a austeridade não explica uma recuperação financeira. O clube cortou despesas, mas a transformação se consolidou quando a reorganização das contas permitiu um crescimento expressivo das receitas.
Foi essa trajetória que permitiu ao clube sair de uma situação na qual a dívida limitava sua capacidade de investimento e se tornar a instituição esportiva de melhor saúde financeira da América do Sul.
A comparação que colocou o Flamengo no debate econômico nacional, portanto, funciona melhor como analogia do que como método. Não existe uma fórmula rubro-negra pronta para Brasília. Mas existe um exemplo de como organização financeira, crescimento de receitas e administração da dívida podem transformar a capacidade de investimento de uma instituição.
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