
Há três meses, depois de uma vitória magra e pouco convincente sobre o Estudiantes, escrevi neste mesmo espaço sobre “um Flamengo que precisa ser lembrado da própria grandeza na Libertadores”. Naquela noite, mesmo classificado e defendendo o título continental, o Rubro-Negro parecia não compreender completamente o tamanho que carregava quando entrava em campo.
Nesta quarta-feira (19), não foi preciso lembrar.
Durante 45 minutos, o Cruzeiro não enfrentou apenas um time melhor. Enfrentou um Flamengo que estabeleceu a hierarquia de uma noite de Libertadores no Maracanã. Pressão, intensidade, recuperação imediata, 60% de posse, 11 finalizações em 20 minutos e nenhum chute adversário na direção do gol.
Mais importante do que os números, no entanto, era a imagem. Olhar para os jogadores do Cruzeiro em dúvida a cada tentativa de saída. Passes errados, opções que não apareciam, Gerson, Matheus Pereira e Kaio Jorge excluídos do jogo e um time incapaz de encontrar respostas.
Do lado rubro-negro, cerca de 70 mil rubro-negros entre os 72.481 presentes que transformaram o Maracanã em um local que o sentimento é de ser impossível perder. E quanto mais o Flamengo crescia, menor o Cruzeiro parecia.
Até que Arrascaeta fez o que Arrascaeta costuma fazer.
Pedro devolveu, o uruguaio bateu de primeira no ângulo e o Maracanã explodiu. Não apenas pelo golaço, mas porque aquele chute materializou tudo o que aconteceu até ali. O Flamengo empurrou o Cruzeiro para trás durante 34 minutos até que o seu Camisa 10 colocou no placar a superioridade que era evidente no campo.
A força não pertence a quem passa
Existe algo particularmente simbólico em Gerson e Fabrício Bruno estarem justamente do outro lado nesta noite. Especialmente Gerson, muito hostilizado desde o aquecimento, sentiu um estádio que há pouquíssimo tempo o tratava como ídolo agora anular a sua participação no jogo.
O que é também uma das principais demonstrações da força construída pelo Flamengo nos últimos anos. Ela não pertence aos jogadores que passam pelo clube. Os nomes mudam, mas o Flamengo permanece, e permanece com aqueles que querem vestir o Manto Sagrado.
Persiste como o clube que conquistou duas das últimas quatro Libertadores, venceu o Brasileirão de 2025 e está nesta edição para defender o título. O clube que transformou o Maracanã em uma fortaleza continental e que, desde 1981, agora soma 21 jogos sem perder em 25 partidas eliminatórios de Libertadores no estádio.
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Quando o jogo ameaçou mudar
Hierarquia também se mostra na forma como um time reage quando o jogo ameaça escapar do seu controle.
E a melhor demonstração disso contra o Cruzeiro talvez tenha acontecido justamente quando o Flamengo deixou de dominar. O rival voltou melhor, Jorginho salvou uma bola sobre a linha e Lucas Romero empatou com um golaço.
Era o momento em que o jogo poderia mudar completamente. Só que o Maracanã continuou cantando e foram necessários apenas 11 minutos para a resposta: Arrascaeta encontrou Pedro, Pedro serviu Samuel Lino e o atacante devolveu a vantagem ao Flamengo.
Algo parecido já havia acontecido no Mineirão, quando o Cruzeiro abriu o placar e Paquetá empatou praticamente um minuto depois. Duas vezes o rival encontrou seu momento. Duas vezes o Flamengo respondeu rapidamente, como quem dá um recado que aquele confronto tem um dono.
O Flamengo sabe quem é

Depois do jogo, Samuel Lino mal conseguia ouvir a pergunta do repórter. “Não dá para escutar”, disse, antes de classificar como uma “loucura” aquilo que a torcida havia feito.
Isso também faz parte da força do Flamengo na Libertadores. Não são apenas os milhões investidos ou um elenco estrelado. Existe um time acostumado a vencer essa competição e um Maracanã capaz de transformar a noite para quem joga a favor e para quem joga contra.
Na fase de grupos, escrevi que o Flamengo precisava ser lembrado da própria grandeza.
Três meses depois, não precisou. Dentro do Maracanã, em noite de Libertadores, o Flamengo mostrou novamente onde é o seu lugar.
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